Author:
José Manuel Fernandes
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Date Posted: 13/07/04 17:57
Um dos segredos de Santana Lopes é proporcionar uma surpresa por dia, para tornar tudo relativo e apenas dependente do tempo de antena proporcionado pelos telejornais
Com a indigitação de Pedro Santana Lopes para primeiro-ministro entrámos ontem numa nova fase. Que pode trazer surpresas diárias - pior: que pode fazer-se de surpresas diárias. Por hoje, a expectativa é em torno de quem integrará o Governo. Nunca, até hoje, Santana formou grandes equipas ou foi capaz de rodear-se dos melhores. Mas se no passado nos surpreendeu inúmeras vezes, não é impossível que volte a fazê-lo. E nem sequer seria surpreendente que nomes sonantes, credíveis, "pesados", aceitassem fazer parte da sua equipa, sendo certo que muitos estão a ser pressionados para isso. Uns em nome da necessidade de salvar a louça, outros da importância de não deixar fugir a oportunidade, outros ainda com o argumento de que ou se ajuda Santana Lopes ou o desastre pode ser muito maior. Para além disso, como a situação económica já não é de tanto aperto, pode haver quem se deixe tentar, pelo que Santana até poderá reunir uma equipa melhor do que a legada por Durão Barroso, que não era famosa. A questão estará em saber se basta ter bons executantes para fazer uma boa orquestra, sendo que se conhecem as características erráticas do maestro.
De resto, para quem tivesse dúvidas sobre o estilo de Santana, os últimos dias ajudaram a tirar o retrato do personagem.
Por um lado, mostrou uma fina sensibilidade política, uma intuição genuína capaz de detectar a menor oscilação de temperatura e adaptar-se instantaneamente. Disso é prova, por exemplo, a forma como corrigiu o discurso entre as entrevistas à RTP e à SIC, pondo a máscara do estadista ponderado que respeita antes de mais o Presidente da República. Não foi fazer comícios para o átrio de Belém, como Paulo Portas, nem avançou nenhum nome do seu Governo (e certamente que algum já tem) antes de falar com o Presidente, um cuidado institucional que nem Guterres teve em 1985. Santana é também um excelente actor, sobretudo frente aos holofotes das televisões, pelo que ninguém o subestime.
Por outro lado, o pouco que disse sobre o que seria o seu novo Governo é puro fogo-fátuo. Anunciou ir abrir o Executivo a figuras de fora de Lisboa, algo que num país tão pequeno como Portugal é quase irrelevante: nalguns casos é pouco mais do que uma flor no chapéu, noutros um equívoco que as regiões de origem desses políticos pagam caro. Ou será que alguém notou reais diferenças de competências, sensibilidades e políticas por Soares ser um lisboeta, Cavaco ter nascido no Algarve, Guterres possuir raízes beirãs ou Barroso transmontanas?
Mas pior foi ter feito crer que despachar uns ministérios para fora de Lisboa seria uma grande medida de descentralização. Ora cheirar a vacas no gabinete do ministro da Agricultura ou verem-se inglesas torradas pelo sol da janela do secretário de Estado do Turismo não faz deles melhores governantes nem corresponde a nenhuma real descentralização. A centralização é a mesma enquanto tudo tiver de ir ao gabinete do ministro, esteja ele no Terreiro do Paço ou na Foz do Douro. E a descentralização só o será quando esse ministro transferir poder para instâncias descentralizadas, e isso pode fazer-se a partir de Lisboa ou de Marte.
Ter surgido com tais ideias é, contudo, sintomático: Santana vive dos títulos dos jornais e das frases que passam em rodapé nas televisões. Por isso terá, todos os dias, uma ideia para ocupar esses espaços, ideia de que se esquecerá tão depressa como os eleitores, pois a ideia de cada dia serve para fazer esquecer a do dia anterior. É também dessa massa que se faz o populismo.
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