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Subject: Re: Software Livre - A discussão errada


Author:
Gonçalo Valverde
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Date Posted: 28/09/04 14:50
In reply to: Fernando Penim Redondo 's message, "Software Livre - A discussão errada" on 27/09/04 12:49

Caro Fernando, tendo trabalhado tantos anos da informática acho que sabes melhor do que eu que os conceitos do software livre estão muito longe de ser uma novidade tecnológica pois não só as ideias base foram enunciadas em 1984 por Richard Stalman (e duas décadas na história da informática é muito tempo), como o conceito de software proprietário é algo posterior ao próprio software. E deves saber tão bem ou melhor que eu que muita coisa que utilizamos actualmente se deve ao desenvolvimento num modelo semelhante ou idêntico ao do software livre.
Quanto muito poder-se-à dizer que actualmente se tem dado mais destaque à questão, e que para alguns falar de software livre é uma moda.. agora isso não significa que esta seja apenas uma questão de modas ou de "novidades tecnológicas" pois estamos a falar não só de questões essenciais em termos de liberdade como numa questão que me parece ser de base para muitas das discussões que aqui temos tido, ou seja a socialização dos meios de produção. E neste ponto de vista, o software livre, ao disponibilizar o acesso ao código fonte está a socializar um dos principais meios de produção deste ramo que é a informação e o conhecimento.

As potencialidades abertas pelo "monopólio" do Bill Gates acabaram por criar uma plataforma universal aonde centenas de milhões de seres humanos têm condições de comunicar de forma inteligível. A discussão que mais me interessa é como aproveitar essas potencialidades.

Acho que a tua análise do software livre como estando muito ligado ao "ódio" pelo Bill Gates um bocado redutora da questão, e pessoalmente não entro pelo "ódio" ao Bill Gates. Até porque não tenho ilusões e sei perfeitamente que se a IBM ou a Sun Microsystems ou a Novell estão a apostar no software livre, não é por serem grandes filantropos ou por serem melhores que o Bill Gates caso detivessem o monopólio do mercado.
De qualquer das formas, a tal plataforma universal que o Bill Gates terá criado, resume-se apenas ao sistema operativo e a algumas aplicações, pois a verdadeira plataforma universal que permite que centenas de milhões de seres humanos possam comunicar uns com os outros não só foi criada por motivos não comerciais, como assentou em protocolos abertos e muito em software livre. Aliás, a alternativa proposta pelo Bill Gates (a MSN Network) acabou por não ter sucesso absolutamente nenhum, tendo sido engolida pela Internet, como muitas outras redes proprietárias (vide os casos da Compuserve, Prodigy, AOL, etc.). Tanto assim é, que estamos a discutir num fórum que está alojado num servidor que tem o Linux (software livre) como Sistema Operativo, que utiliza como servidor web o Apache (software livre), que tem como software de fórum o Phorum (software livre), software esse que foi programado em PHP (software livre). Mesmo o próprio conceito de World Wide Web e de browser web são na sua base, software livre (e muito do que afirmei atrás também é válido para o www.dotecome.com).
Isto não significa que a questão de aproveitar as potencialidades não seja relevante (e é), mas parece-me que não só essas potencialidades podem ser melhor aproveitadas num modelo de software livre, como me parece até mais interessante que essas potencialidades sejam propicionadas por um modelo mais próximo da visão comunista (embora possamos discutir se o software livre se encontra próximo da visão comunista.. no meu entender está, mas não é uma questão nem de perto consensual dentro da comunidade do software livre).

Os problemas dos "técnicos", daqueles que pensam que fariam melhores ferramentas, dos coca-bichinhos, não me interessam muito o que me entusiasma é a ideia de milhões e milhões a poderem comunicar entre si.

Curiosamente a possibilidade desses milhões e milhões poderem comunicar entre si é em grande parte devida não ao software proprietário mas sim ao software livre. Claro que podes afirmar que a maioria utiliza como base software proprietário, mas o mesmo não é válido para grande parte da infraestrutura. E também se pode afirmar que isso já era possível com redes proprietárias, mas também não deixa de ser verdade que essas redes proprietárias nunca tiveram o alcance e o crescimento que a Internet teve.
Por outro lado, a questão aqui não é meramente técnica mas sim do controle dos meios de produção, ou se preferires do acesso à informação e ao controle da mesma.

Os que defendem o software livre fazem-no porque não dependem disso para viver, normalmente têm os rendimentos como assalariados...

Se quiseres posso apresentar-te umas quantas pessoas que vivem do software livre, que desenvolvem software livre e que dependem disso para viver não sendo assalariados. (isto para não entrar pelas questões das grandes empresas que estão a apostar no desenvolvimento do software livre, embora não seja de todo por razões altruístas).

Não me parece que os bloqueamentos se encontrem no preço do software (vejo mais gente a queixar-se do custo da banda larga) e muito menos na qualidade do software disponível (a generalidade dos utilizadores só sabe usar uma pequena parcela das potencialidades)

A questão do preço não é nem de perto a mais relevante no software livre, e sabes tão bem como eu, que o custo das licenças é uma percentagem reduzida do TCO. Aliás, normalmente a questão dos custos embora seja referida não é a determinante para a defesa do software livre e é uma abordagem incorrecta. É muito mais relevante a questão do acesso ao código fonte, da possibilidade de modificar o mesmo para o que se pretende, e na possibilidade de distribuir os melhoramentos por toda a comunidade.

O factor crítico não é pois fomentar o aparecimento de milhares de novas versões de software para depois tentarmos perceber qual é a melhor (coisa para a qual só os coca-bichinhos têm tempo).

Também não é o factor mais relevante a questão de fomentar o aparecimento de milhares de novas versões de software, embora ao contrário de ti parece-me que não são só os coca-bichinhos que têm tempo para tal. Se eu não estou contente com uma determinada aplicação (ou por ter coisas a mais, ou por não fazer o que eu quero) parece-me ser importante que possa optar por outra que faça.. ou melhor ainda, que possa adaptar (ou pagar a alguém para o fazer) a aplicação para fazer o que eu quero.

Como homem de esquerda eu defendo é que a propriedade intelectual de qualquer criação/invenção tenha que estar sempre ligada aos seus autores humanos e que, portanto, não haja propriedade intelectual detida por empresas (elas não têm intelecto não é verdade ?)

A questão da invenção no caso do software é uma questão que me parece deveras complicada e a permitir a sua patenteabilidade irá criar demasiados problemas ao desenvolvimento de novo software (como aliás, tem demonstrado os problemas com patentes de software que têm surgido nos EUA). A questão dos direitos de autor é mais pacifica, embora no caso do software não seja uma questão tão simples, pois a maioria dos programas acabam por se basear em blocos de ideias já préviamente desenvolvidos.

Para mim é claro que o novo modo de produção que está a emergir se baseia no tratamento de informação, na produção de conhecimento, e portanto seria absurdo tornar gratuito aquilo que será a base da remuneração e da subsistência em sociedade.

Bem, aqui das duas uma. Ou se é a favor da socialização dos meios de produção e nesse caso a tua afirmação não faz sentido, ou não concordamos com a mesma, caso em que a tua afirmação fará sentido.
De qualquer das formas, parece-me que estás a equacionar Software Livre a Software Grátis, o que está longe de estar correcto e é uma discussão bastante antiga (não é por acaso que se costuma dizer "free as in free speech, not as in free beer") e importa ter em conta os principios base do software livre (as quatro liberdades):
livre, enunciadas por Richard Stallman no inicio da década de 80:
1- A liberdade de executar o software, para qualquer uso.
2- A liberdade de estudar o funcionamento de um programa e de adaptá-lo às suas necessidades.
3- A liberdade de redistribuir cópias.
4- A liberdade de melhorar o programa e de tornar as modificações públicas de modo que a comunidade inteira beneficie da melhoria.

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Subject Author Date
Re: Software Livre - A discussão erradaFernando Penim Redondo30/09/04 11:01


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