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Subject: Os Tempos são Outros...


Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 18/10/04 10:54
In reply to: Luís Carvalho 's message, "Estalinismo, uma geração espontânea" on 16/10/04 23:30

A implosão da URSS e da generalidade do campo socialista não só fez ruir um (o) modelo socialista de sociedade mas reforçou a ofensiva neoliberal que, sob a capa da "globalização" , tem conduzido ao desmantelamento do parque industrial público ,desregulamenta e precariza as relações laborais ,liberaliza os fluxos de capital e privatiza serviços e bens essenciais .

É nesta conjuntura política e económica, neste contexto , que é urgente quebrar o lastro cultural e político relativamente a formalismos teóricos ,a modelos que foram contextualizados e responderam a situações objectivas que, de certo modo , como refere Ângelo Novo numa expressão feliz ,eram " um sarro acumulado que será difícil de limpar por completo ..."

O carácter não dogmático dos ensinamentos de Marx e a própria dialéctica leninista permitem enfrentar e formular as novas abordagens teóricas , novas respostas , sem complexos abjuratórios de um revisionismo teorizante .

A explicação para os grandes desajustamentos teóricos , que se traduzem na pouca ressonância a propostas de alterações politico-sociais, poderá decorrer dessa descontextualização formal, de uma desafectação das massas populares , daquilo a que se poderia classificar de " desinteresse..." de "apatia " mais do que uma deserção cívica...









>
>Tomei a iniciativa de trazer este artigo aqui para o
>Fórum dotecome porque me parece muito bom, bastante
>pertinente e merecedor de reflexão e discussão.
> Toca naquele que será, em grande medida, no meu
>modesto ver, o problema chave para o comunismo actual:
>ultrapassar, ainda pois, concepções teóricas marcadas
>pelo estalinismo; recuperar as anteriores concepções
>comunistas que o estalinismo reprimiu e, em grande
>medida, conseguiu apagar; ultrapassar visões
>idealistas, nomeadamente acerca de Lénin, do partido
>bolchevique e da revolução de Outubro. Resumindo: há
>que superar a tremenda debilidade ideológica
>(expressão utilizada por Julio Anguita em finais de
>1989) e o descrédito em que caiu o comunismo.
>Escalpelizar a história da União Soviética e das
>outras experiências falhadas de construção do
>socialismo que ela influenciou é fundamental. No
>sentido de tornar claro, como dizia Luís Sá, que não é
>em concepções sectárias e autoritárias, de limitação
>de liberdades e direitos que radica a essência do
>comunismo - antes muito pelo contrário. Ou seja: o
>chamado socialismo real não foi (nem os seus
>resquícios são) socialismo. E esclarecer ainda como é
>que em nome de um ideal tão justo e libertário se
>cometeram monstruosidades - para que nunca mais se
>repita e esclarecer os caminhos efectivos para a
>transformação da sociedade e a construção do
>socialismo.
>
>Tenho no entanto a apontar a este artigo de Paulo
>Fidalgo um erro que me parece fundamental. A dada
>altura refere divergências que teriam sido dirimidas
>ainda em ambiente de democracia partidária no início
>da década de 1920 e que deram depois azo à emergência
>de Estaline. Enfim trata-se uma visão semelhante à
>que outro dirigente da Renovação Comunista, Edgar
>Correia, apresentou numa algo recente entrevista ao
>Diário de Notícias: que no final dos anos 20 do século
>passado se deu uma degeneração do PCUS.
>Assim até parece que o estalinismo nasceu de geração
>espontânea!... O que Paulo Fidalgo chama de democracia
>partidária era mais uma oligarquia pluralista, num
>partido deformado pela guerra civil e pela degradação
>social da Rússia... um partido literalmente de guerra,
>de uma guerra onde ia sendo aniquilado... centralizado
>e militarizado - muito mais do que durante a
>clandestinidade. E o Estaline? Não era, desde 1912
>membro do restrito comité central no interior da
>Rússia? No início da Revolução de 1917 até era um
>moderado defensor de uma revolução
>democrático-burguesa... Durante a Revolução de Outubro
>terá tido um papel mais relevante do que Bukarine...
>Os líderes intelectuais bolcheviques continuavam a
>discutir ideias... mas Estaline era mais próximo das
>camadas intermédias do partido, menos dotadas
>teoricamente, um tanto alheadas das discussões
>teóricas, militarizadas numa guerra fraticida e numa
>sociedade em decomposição. O partido tinha no início
>de 1917 uns 25 mil membros. Finda a guerra civil terá
>um milhão ou perto disso. A maior parte aderiu ao
>partido durante a guerra civil, marcados, formados por
>esta. Nunca tiveram tempo nem formação para estudar
>marxismo. Sobreviveram. Querem viver. A ‘oposição de
>esquerda’, nomeadamente Trotski não queria acabar com
>a NEP. Pretendia a industrialização simultaneamente
>com a NEP. A colectivização dos campos era necessária.
>O capitalismo rural (produção para o mercado)
>mitigara-se banstante com a revolução e a guerra.
>Propriedades muito pequenas, sem meios técnicos
>modernos etc. Para Trotski, a colectivização era para
>ser induzida económicamente e pelo exemplo de
>cooperativas pioneiras. Estaline só abandonou a NEP
>numa situação de crise ( os camponeses recusavam-se a
>vender produtos agrícolas para as cidades, ameaça de
>fome nas cidades) O regime fundara-se com o apoio da
>classe operária urbana mas era estrangeiro no
>campesinato - a esmagadora maioria da população. Outro
>factor a ter em conta nisto tudo é o isolamento da
>revolução num só país e perante a hostilidade e ameaça
>de guerra das grandes potências. Estaline foi um
>tirano, assassino em massa. Mas não nasceu assim.
>Foi-se fazendo. E o período que antecedeu a sua
>ascensão à liderança do regime... já era uma ditadura
>de partido único, um regime autoritário que governava
>sem o apoio e a legitimidade da esmagadora maioria da
>população, que de modo algum era imune à interacção
>com a sociedade - e à profunda regressão que esta
>conheceu com a guerra civil.
>Resumindo, penso que Paulo Fidalgo não tem em devida
>conta as transformações operadas na sociedade e no
>próprio partido. E idealiza o partido no período
>anterior à ascensão de Estaline.

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Replies:
Subject Author Date
Re:O ALTERMUNDIALISMO..Luis Blanch19/10/04 15:26
Re: Os Tempos são Outros...Luís Carvalho 3/11/04 11:16


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