A pergunta, com mais propriedade, deveria ser reformulada, de forma a poder abranger as revoluções comunistas em geral. Assim, por exemplo: porque falhou o comunismo?
Esta, em meu entender, seria a pergunta correcta que os comunistas deveriam colocar. O colapso foi geral, ao nível da economia e da política, e não se resumiu apenas aos regimes implantados por golpes de Estado insurreccionais e guerras civis (as revoluções proletárias, as revoluções democráticas e nacionais, as revoluções democrático-populares, as revoluções…), mas também àqueles onde a conquista do poder se efectivou por golpes palacianos ou se resumiu à transferência das mãos do exército vermelho, por vias mais ou menos pacíficas ou não muito conturbadas. E o tempo decorrido foi longo, suficiente para que o chamado socialismo pudesse mostrar o que valia no confronto com o capitalismo.
Não faltarão respostas, dado que tudo falhou, se comparado com os esboços da profecia: nem abundância, nem amplas liberdades, muito menos a tão almejada igualdade (ainda que muito menor desigualdade material…). E não faltarão graduações para as causas, qual delas a mais importante. Por fim, causa das causas, a culpa há-de ir inteirinha para o sacana do imperialismo.
Em vez deste exercício inglório, porque não se dedicam a questionar a profecia e os seus alicerces teóricos? A tarefa é assaz difícil, e, além do mais, ingrata e cheia de dissabores, eu sei. Para qualquer crente pela fé é muito mais fácil e reconfortante aceitar as verdades eternas que o filho de qualquer deus pai todo poderoso já proclamou! E, depois, prás massas, tudo o que passe das questiúnculas concretas da pequena política é incompreensível. Afinal, pra que se adere a um partido (ou a uma seita religiosa)? Não é pra que ele nos forneça a explicação pra tudo e a orientação a seguir em todos os momentos?
Façam um esforço: questionem as verdades axiomáticas do comunismo como sucessor do capitalismo e do proletariado como sucessor da burguesia, com a nobre missão de remir os pecados cometidos pela Humanidade com a implantação da propriedade privada dos meios de produção. Não se preocupem, que os pecados não hão-de durar pra sempre, isso é mais do que certo, mas questionem o resto. Ao menos pra tirarem melhor proveito da luta económica e política com os trapaceiros dos capitalistas!