| Subject: Re: Cosmopolitismos |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 13/09/04 22:13
In reply to:
António Fagundes
's message, "Re: Cosmopolitismos" on 13/09/04 18:02
>>"Escusado é dizer, Marx pensava precisamente que os
>>trabalhadores se elevavam natural e espontaneamente a
>>uma consciência universal".
>
>Pelo que julgo conhecer, Marx não pensaria tal. Talvez
>por assim ser tenha participado na formação de um
>partido político (a Associação Internacional dos
>Trabalhadores), cujo manifesto ficou constituindo um
>dos fundamentos ideológicos do comunismo, e tenha
>feito reparos ao programa do partido social-democrata
>alemão.
Bom em primeiro lugar, há aqui dois equívocos para esclarecer:
A AIT não era nenhum partido político. Era uma associação de classe, na qual se filiavam várias organizações operárias de vários países, de âmbito aliás muito diverso - sindicatos, cooperativas, associações mutualistas, culturais, etc.. O objectivo da AIT era, a "luta pela libertação social e política da classe operária". Nesse sentido, era uma organização política mas a maior parte da sua actividade seria hoje considerada sindical: colectas de fundos para grevistas, acções de solidariedade, etc..
O Manifesto do Partido Comunista foi escrito vários anos antes e não tinha nada a ver com a AIT. Foi escrito para uma organização chamada Liga dos Comunistas, que era uma associação modesta, composta na sua maioria por operários alemães no estrangeiro.
Marx não teve a iniciativa de fundar ou dirigir nenhuma destas organizações. Elas foram ambas criações espontâneas do operariado. Aliás, pode dizer-se que foram os clubes operários que Marx conheceu quando foi para o seu primeiro exílio em Paris que o converteram ao comunismo. Marx tinha um grande respeito pela criatividade ideológica dos operários. Achava-os muito à frente dos filósofos palradores e fazedores de sistemas do seu tempo.
Também é verdade que o operariado daquele tempo era muito especial. Não era constituído pelas grandes massas operárias que surgiram depois. Eram operários artistas, longínquos descendentes dos mesteres medievais. Gente geralmente cultivada e viajada, que tinha um certo espírito de corporação, com os seus rituais iniciáticos, a sua ideologia (comunista), etc..
Estes operários eram cosmopolitas antes de mais nada porque viajavam efectivamente, da Suiça para a Alemanha, para a França, para Londres, Bruxelas, alguns para a América. Falavam várias línguas, etc..
Foi com eles que Marx se ligou no mundo do trabalho e formou as suas ideias políticas.
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