Se é para entender, eu posso tentar explicar. Não sei se darei conta do recado ou se serei bem sucedido, mas esforçar-me-ei. Espero que da sua parte haja como contrapartida abertura de espírito e interesse.
1.Diversidade das taxas de lucro. Em condições de mobilidade completa das forças produtivas (meios de produção e força de trabalho) e em mercado concorrencial (sem monopólios, claros ou disfarçados), no interior de um ramo, ou até entre nos diversos ramos, e apesar dos capitalistas pretenderem, no mínimo, taxas de lucro idênticas para remunerar os seus capitais, elas acabam por ser desiguais. Para esta ocorrência, os factores são variados, mas reais: diversa composição orgânica dos capitais, susceptível de gerar produtividade também diversificada, economias de gestão e de custos (redução de desperdícios, proximidade dos centros de consumo, por exemplo), adequação da sua oferta à procura, melhor marketing (apresentação e publicidade) ou outra qualquer vantagem transitória (rede de distribuição, etc.). O investimento no interior dum ramo, numa empresa concreta, procurando melhorar a produtividade e aumentar a quota de mercado, ou a mobilidade dos capitais de uns ramos para outros, acabará por reduzir as diferenças nas taxas de lucro, tendendo a igualá-las (a chamada perequação dos lucros), até à ocorrência de novo desequilíbrio que as diferencie significativamente, num movimento contínuo de pescadinha de rabo na boca do desequilíbrio a fugir do equilíbrio.
2.Lucro e quota de mercado. O problema dos capitalistas nunca foi produzir mas vender a produção, daí as crises de sobreprodução e a repartição do valor acrescentado por uma caterva de intermediários, tendo cada um o seu lucro. Todas as razões que aponta (marketing e cadeia de distribuição), mas também a qualidade relativa das mercadorias (que teremos de considerar similar, para se poder comparar o resto), a preferência dos consumidores e a sua fidelização a marcas (por encontrarem nas mercadorias concretas respostas ao seu gosto particular ou a qualquer vínculo afectivo) são importantes para a adequação da realização da produção (adequação da oferta à procura), para as margens de lucro (o lucro operacional) e para a taxa de lucro, apesar da produtividade ou dos custos de produção serem diversificados (ou até inferiores, no caso de empresa externa, cuja relação custo de transporte/salário constitua ainda vantagem competitiva). A margem de lucro (o lucro operacional) ou a taxa de lucro dependem daqueles factores e não tanto da quota de mercado; pequenas empresas, com uma quota de mercado menor do que outras de maior dimensão, podem apresentar margens e taxas de lucro maiores, já que a quota de mercado conquistada só é importante se for desajustada, por inferior, ao valor da produção que realiza a taxa de lucro esperada, deixando produção por vender.
3.Trabalho produtivo e improdutivo. As mercadorias só existem como tal quando são vendidas, quando o seu valor é realizado pela troca; enquanto não se realizam constituem apenas produtos com valor de custo de produção e valor de uso, são uma despesa para o capitalista e não fonte do lucro. Entre muitas outras ambiguidades e erros, as concepções do Marx sobre o trabalho produtivo são não só ambíguas como insuficientes e, até, erradas, nomeadamente por considerar o lucro comercial como parte da mais-valia, mas não considerar a força de trabalho empregada na circulação das mercadorias como trabalho produtivo. Se a mercadoria é o veículo do valor, o ciclo produtivo só pode ser o ciclo do capital, não pode restringir-se ao ciclo industrial da criação de produtos mas à realização das mercadorias e, com elas, da mais-valia, ainda que a produção e a circulação das mercadorias tenham características diversas e se encontrem repartidas por tipos distintos de capital e de capitalistas. Não é por acaso que são os produtores, mais do que os intermediários, que apostam e investem no marketing dos seus produtos e das suas marcas.
4.Valor social e valor particular. Qualquer comparação que se pretenda fazer tem de partir do princípio de que o que se compara tem a mesma qualidade, isto é, as mercadorias do mesmo tipo só são comparáveis se tiverem qualidade similar (aferida pelos padrões habituais de qualidade). Mas não é de admirar se uma mercadoria de menor qualidade merecer a preferência dos consumidores potenciais se a sua relação qualidade/preço for melhor do que outra de melhor qualidade mas de menor relação. De qualquer modo, o valor (de troca) das mercadorias de cada um dos tipos deve ser tomado como valor socialmente necessário (correspondendo à média ponderada dos diversos valores particulares). Para se compreender que a troca capitalista é uma troca desigual até entre os próprios capitalistas é também necessário determinar o valor socialmente necessário da produção global, tomá-lo para índice da produtividade social global e, a partir dele, comparando a produtividade de cada ramo ou a produtividade de cada empresa concreta com a produtividade global, determinar as produtividades relativas, base da troca real das mercadorias. Também neste caso, ao contrário do que Marx pensava, as mercadorias concretas não se trocam com base nos seus valores sociais (nos valores de cada tipo de mercadorias ou “valor de mercado”, ou nos “preços de produção”, correspondendo aos valores de mercado corrigidos pela aplicação da taxa geral de lucro, nas designações de Marx) mas com base nas produtividades diferenciais (ou com base em taxas de valor acrescentado diferenciais, ainda que estas tendam para a realização de taxas de lucro idênticas ou similares).
Este último ponto foi colocado para ajudar a compreender as questões afloradas noutras intervenções anteriores. Espero que não tenha complicado o entendimento dos anteriores por demais.