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Subject: Re: Uma nova teoria da exploração?


Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 7/09/04 9:16
In reply to: António Fagundes 's message, "Re: Uma nova teoria da exploração?" on 6/09/04 17:47

Amigo Fagundes : Foi suficientemente esclarecedor e,se me permites o ponto 3 e 4 foram, são ,decisivos
.
E Foi de facto para entender,sem complexos para quem se orgulha de cultivar a modéstia intelectual.
Saudações, Blanch




Se é para entender, eu posso tentar explicar. Não sei
>se darei conta do recado ou se serei bem sucedido, mas
>esforçar-me-ei. Espero que da sua parte haja como
>contrapartida abertura de espírito e interesse.
>
>1.Diversidade das taxas de lucro. Em condições de
>mobilidade completa das forças produtivas (meios de
>produção e força de trabalho) e em mercado
>concorrencial (sem monopólios, claros ou disfarçados),
>no interior de um ramo, ou até entre nos diversos
>ramos, e apesar dos capitalistas pretenderem, no
>mínimo, taxas de lucro idênticas para remunerar os
>seus capitais, elas acabam por ser desiguais. Para
>esta ocorrência, os factores são variados, mas reais:
>diversa composição orgânica dos capitais, susceptível
>de gerar produtividade também diversificada, economias
>de gestão e de custos (redução de desperdícios,
>proximidade dos centros de consumo, por exemplo),
>adequação da sua oferta à procura, melhor marketing
>(apresentação e publicidade) ou outra qualquer
>vantagem transitória (rede de distribuição, etc.). O
>investimento no interior dum ramo, numa empresa
>concreta, procurando melhorar a produtividade e
>aumentar a quota de mercado, ou a mobilidade dos
>capitais de uns ramos para outros, acabará por reduzir
>as diferenças nas taxas de lucro, tendendo a
>igualá-las (a chamada perequação dos lucros), até à
>ocorrência de novo desequilíbrio que as diferencie
>significativamente, num movimento contínuo de
>pescadinha de rabo na boca do desequilíbrio a fugir do
>equilíbrio.
>
>2.Lucro e quota de mercado. O problema dos
>capitalistas nunca foi produzir mas vender a produção,
>daí as crises de sobreprodução e a repartição do valor
>acrescentado por uma caterva de intermediários, tendo
>cada um o seu lucro. Todas as razões que aponta
>(marketing e cadeia de distribuição), mas também a
>qualidade relativa das mercadorias (que teremos de
>considerar similar, para se poder comparar o resto), a
>preferência dos consumidores e a sua fidelização a
>marcas (por encontrarem nas mercadorias concretas
>respostas ao seu gosto particular ou a qualquer
>vínculo afectivo) são importantes para a adequação da
>realização da produção (adequação da oferta à
>procura), para as margens de lucro (o lucro
>operacional) e para a taxa de lucro, apesar da
>produtividade ou dos custos de produção serem
>diversificados (ou até inferiores, no caso de empresa
>externa, cuja relação custo de transporte/salário
>constitua ainda vantagem competitiva). A margem de
>lucro (o lucro operacional) ou a taxa de lucro
>dependem daqueles factores e não tanto da quota de
>mercado; pequenas empresas, com uma quota de mercado
>menor do que outras de maior dimensão, podem
>apresentar margens e taxas de lucro maiores, já que a
>quota de mercado conquistada só é importante se for
>desajustada, por inferior, ao valor da produção que
>realiza a taxa de lucro esperada, deixando produção
>por vender.
>
>3.Trabalho produtivo e improdutivo. As mercadorias só
>existem como tal quando são vendidas, quando o seu
>valor é realizado pela troca; enquanto não se realizam
>constituem apenas produtos com valor de custo de
>produção e valor de uso, são uma despesa para o
>capitalista e não fonte do lucro. Entre muitas outras
>ambiguidades e erros, as concepções do Marx sobre o
>trabalho produtivo são não só ambíguas como
>insuficientes e, até, erradas, nomeadamente por
>considerar o lucro comercial como parte da mais-valia,
>mas não considerar a força de trabalho empregada na
>circulação das mercadorias como trabalho produtivo. Se
>a mercadoria é o veículo do valor, o ciclo produtivo
>só pode ser o ciclo do capital, não pode restringir-se
>ao ciclo industrial da criação de produtos mas à
>realização das mercadorias e, com elas, da mais-valia,
>ainda que a produção e a circulação das mercadorias
>tenham características diversas e se encontrem
>repartidas por tipos distintos de capital e de
>capitalistas. Não é por acaso que são os produtores,
>mais do que os intermediários, que apostam e investem
>no marketing dos seus produtos e das suas marcas.
>
>4.Valor social e valor particular. Qualquer comparação
>que se pretenda fazer tem de partir do princípio de
>que o que se compara tem a mesma qualidade, isto é, as
>mercadorias do mesmo tipo só são comparáveis se
>tiverem qualidade similar (aferida pelos padrões
>habituais de qualidade). Mas não é de admirar se uma
>mercadoria de menor qualidade merecer a preferência
>dos consumidores potenciais se a sua relação
>qualidade/preço for melhor do que outra de melhor
>qualidade mas de menor relação. De qualquer modo, o
>valor (de troca) das mercadorias de cada um dos tipos
>deve ser tomado como valor socialmente necessário
>(correspondendo à média ponderada dos diversos valores
>particulares). Para se compreender que a troca
>capitalista é uma troca desigual até entre os próprios
>capitalistas é também necessário determinar o valor
>socialmente necessário da produção global, tomá-lo
>para índice da produtividade social global e, a partir
>dele, comparando a produtividade de cada ramo ou a
>produtividade de cada empresa concreta com a
>produtividade global, determinar as produtividades
>relativas, base da troca real das mercadorias. Também
>neste caso, ao contrário do que Marx pensava, as
>mercadorias concretas não se trocam com base nos seus
>valores sociais (nos valores de cada tipo de
>mercadorias ou “valor de mercado”, ou nos “preços de
>produção”, correspondendo aos valores de mercado
>corrigidos pela aplicação da taxa geral de lucro, nas
>designações de Marx) mas com base nas produtividades
>diferenciais (ou com base em taxas de valor
>acrescentado diferenciais, ainda que estas tendam para
>a realização de taxas de lucro idênticas ou similares).
>
>Este último ponto foi colocado para ajudar a
>compreender as questões afloradas noutras intervenções
>anteriores. Espero que não tenha complicado o
>entendimento dos anteriores por demais.
>
>António Fagundes.

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