| Subject: Re: Um bom partido trabalhista I |
Author:
António Fagundes
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Date Posted: 19/08/04 23:15
In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "Re: Um bom partido trabalhista I" on 19/08/04 16:26
Fernandes.
Recordo que também o Marx não era marxista. E se “a maioria dos intervenientes voluntária ou involuntariamente se declara de formação marxista”, pelo que tenho visto só pode ser no pior sentido, porque repetem meros chavões, muitos deles com pouco a ver com as análises de Marx, outros de que não compreendem o verdadeiro significado, e o que parece calar-lhes mais fundo é precisamente a crença no axioma profético da revolução proletária.
Facilmente reconheço “que o diálogo é difícil quando os referenciais não são coincidentes”, principalmente quando os referenciais a que se refere se resumem precisamente àquele axioma. Eu não faria a ofensa de reduzir a obra do Marx a uma proclamação panfletária idealista, que constitui nela o aspecto menos original. Também não me custa reconhecer que, infelizmente, o espectro do comunismo e da revolução proletária veio a constituir o mais emblemático da obra de Marx, precisamente por ser o que nela é mais difícil de discutir, não porque não se possa questionar mas porque é aceite como um autêntico axioma profético, uma verdade absoluta que não necessita de demonstração, pertencente ao domínio da crença pela fé. Mas mesmo este axioma se pode discutir, e acabar por refutar, se o interlocutor tiver para tal disponibilidade, e sem sair do quadro de referência que preside à análise marxista.
Acontece, frequentemente, por variadíssimas razões, a mais simples de todas será considerar a discussão pura perda de tempo, que os marxistas recusam debater os postulados essenciais da sua ideologia, e para tanto refugiam-se nessa do quadro de refrência distinto. Por minha parte, não necessito de sair do quadro de referência do próprio Marx para discuti-lo e refutá-lo. A não ser que o quadro de referência a que se refiram não seja o método crítico usado pelo Marx mas as suas concepções, por mais idealistas e anti materialistas ou por mais incoerentes que sejam. Neste caso, confesso, não vale a pena intentar sequer discutir se o que valeria a pena discutir, o verdadeiramente discutível, não é aceite para objecto da discussão.
É claro, para qualquer discussão é sempre necessário um interlocutor. Se o interlocutor não aceita discutir as suas verdades fundamentais não há discussão possível. Por minha parte existe não um interesse por aí além, porque reconheço as dificuldades de qualquer fiel em aceitar questionar a sua própria fé, assim como a sua natural aversão e repúdio por tudo o que possa conter o germe da heresia, mas a disponibilidade suficiente para entabular qualquer discussão neste campo, porque nada de fundamental da obra de Marx me é estranho.
Pode crer que impensável para mim é ouvir dizerem-se impunemente, e com a maior desfaçatez, tantas baboseiras em nome de Marx. Mas, enfim, já a minha velha avó dizia que “Deus pai e o filho eram uma e a mesma pessoa” e isso nunca produziu o mínimo abalo na sua profunda fé. A fé de cada um é um seu pleníssimo direito. Os fiéis não podem é atribuir aos infiéis a maldade de serem incréus quando não admitem a discutibilidade da própria fé.
António Fagundes.
>“Ele prende-se com um equívoco idealista de base do
>marxismo – que o proletariado seria a última das
>classes exploradas e que lhe estaria predestinado
>transformar o Mundo – da chamada revolução proletária,
>assim como de outros no campo da crítica da economia
>política. Sem a compreensão desses equívocos, através
>do uso da razão e do mais acutilante espírito crítico,
>é muito difícil sair do campo da crença pela fé. E,
>como todos sabemos, a fé não se discute: tem-se ou
>não”.
>
>Estava na disposição de completar o meu texto anterior
>(“Um bom partido trabalhista I”), respondendo-lhe a
>algumas das suas críticas ao meu texto “O que é a
>renovação Comunista e o leninismo”, quando o Fagundes
>resolveu antecipar-se e deu já resposta à Parte I.
>Deixa por isso de ter sentido continuar a analisar
>ponto por ponto as suas posições. Responder-lhe-ei de
>forma avulsa, conforme me der prazer e me lembrar dos
>pontos que levantou.
>
>Iniciei o texto anterior (“Um bom partido trabalhista
>I”) com uma reflexão geral sobre este fórum e, apesar
>das suas críticas, continuo a pensar aquilo que
>afirmei inicialmente, que muitas vezes as respostas a
>certas intervenções são como que um tiro no escuro, o
>que neste momento não me parece ser a nossa troca de
>ideias. Por outro lado, e como já uma vez aqui o
>afirmei, penso que estes fóruns não são para convencer
>ninguém e contribuem muitas vezes para a divisão entre
>as partes, agravando muitas vezes a polémica. Daí a
>sábia e jesuítica decisão do PCP de só haver umas
>únicas teses para discussão no Congresso, porque se
>houvesse mais, aí teríamos a cristalização das
>opiniões à volta de textos escritos, o que, segundo
>eles, levaria inevitavelmente à criação de facções.
>Por isso, quem quiser dividir vem para aqui discutir
>ou então utiliza este meio como arma da luta
>ideológica contra os eus adversários. Foi o que fez a
>Direcção do PCP contra o BE nas vésperas das eleições
>europeias, o que foi bastante visível nos combates que
>aqui se travaram.
>Sei que nada disto tem a ver com a nossa troca de
>ideias, simplesmente apeteceu-me dize-lo, já que se
>estava a falar deste fórum.
>Não estava também acusá-lo de querer instrumentalizar
>a RC e transformá-la num bom partido trabalhista, mas
>deduzi, e isso parece que se confirmou, que o Fagundes
>gostaria que se formasse um partido nessa área.
>A sua intervenção tem interesse já que é uma das
>primeiras que vem a este fórum defender uma
>perspectiva não marxista, já que a maioria dos
>intervenientes voluntária ou involuntariamente se
>declara de formação marxista. Nesse sentido, a
>discussão será mais interessante, mas os pontos em
>comum serão mais difíceis de encontrar, pelos menos o
>referencial é francamente diferente. E sobre este
>assunto do diálogo já uma vez intervim aqui, dando
>também conta de que o diálogo é difícil quando os
>referencias não são coincidentes.
>Mas, como encimei este texto com uma citação sua,
>gostaria de a comentar. Parece-me que o Fagundes, mais
>uma vez simplifica as posições de quem quer criticar e
>depois malha sobre elas, sendo que à partida tem razão
>porque desfigurou o adversário.
>Se reduzirmos o marxismo a uma predestinação da
>vitória da classe operária é evidente que a sua defesa
>não deixaria de ser uma questão de fé. Sobre esta sua
>crítica reporto-o para o texto que escrevi em 2002 e
>sobre o qual lhe dei as referências e que me parece
>que responde bem à sua argumentação:
>“Hoje ser-se comunista implica pensar-se que outra
>sociedade é possível, diferente do capitalismo, que a
>história não terminou e que o seu devir pode conter no
>bojo a própria destruição da espécie humana, e esta
>discussão também se deve travar, ou pode dar origem,
>por vontade própria dos homens e não por qualquer
>inevitabilidade histórica, de que nós comunistas
>possuímos a chave, a uma sociedade mais fraterna, com
>uma nova relação de produção entre os homens e uma
>diferente estruturação do poder, no fundo, à sociedade
>comunista antevista por Marx.”
>Hoje ser-se marxista ou, se preferirem, adepto do Marx
>e de Lenine, mas também de todo o conjunto de
>pensadores que reflectiram sobre o comunismo, não
>conduz a uma aceitação beata de tudo o que estes
>autores disseram, mas a um aproveitamento crítico das
>suas ideias. O pior é que aqueles que se dizem de
>esquerda e no seu afã de serem modernos, ou de
>renegarem todo o seu passado, deitam fora o bebé
>juntamente com a água do banho. Pode-se recorrer a
>Marx e Lenine como pensadores de esquerda, deve-se
>fugir de transformar a nossa ideologia em
>marxista-leninista. É esta, pelo menos, a minha
>opinião.
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