Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 19/08/04 16:26
In reply to:
António Fagundes
's message, "Re: Um bom partido trabalhista I" on 19/08/04 14:22
“Ele prende-se com um equívoco idealista de base do marxismo – que o proletariado seria a última das classes exploradas e que lhe estaria predestinado transformar o Mundo – da chamada revolução proletária, assim como de outros no campo da crítica da economia política. Sem a compreensão desses equívocos, através do uso da razão e do mais acutilante espírito crítico, é muito difícil sair do campo da crença pela fé. E, como todos sabemos, a fé não se discute: tem-se ou não”.
Estava na disposição de completar o meu texto anterior (“Um bom partido trabalhista I”), respondendo-lhe a algumas das suas críticas ao meu texto “O que é a renovação Comunista e o leninismo”, quando o Fagundes resolveu antecipar-se e deu já resposta à Parte I. Deixa por isso de ter sentido continuar a analisar ponto por ponto as suas posições. Responder-lhe-ei de forma avulsa, conforme me der prazer e me lembrar dos pontos que levantou.
Iniciei o texto anterior (“Um bom partido trabalhista I”) com uma reflexão geral sobre este fórum e, apesar das suas críticas, continuo a pensar aquilo que afirmei inicialmente, que muitas vezes as respostas a certas intervenções são como que um tiro no escuro, o que neste momento não me parece ser a nossa troca de ideias. Por outro lado, e como já uma vez aqui o afirmei, penso que estes fóruns não são para convencer ninguém e contribuem muitas vezes para a divisão entre as partes, agravando muitas vezes a polémica. Daí a sábia e jesuítica decisão do PCP de só haver umas únicas teses para discussão no Congresso, porque se houvesse mais, aí teríamos a cristalização das opiniões à volta de textos escritos, o que, segundo eles, levaria inevitavelmente à criação de facções. Por isso, quem quiser dividir vem para aqui discutir ou então utiliza este meio como arma da luta ideológica contra os eus adversários. Foi o que fez a Direcção do PCP contra o BE nas vésperas das eleições europeias, o que foi bastante visível nos combates que aqui se travaram.
Sei que nada disto tem a ver com a nossa troca de ideias, simplesmente apeteceu-me dize-lo, já que se estava a falar deste fórum.
Não estava também acusá-lo de querer instrumentalizar a RC e transformá-la num bom partido trabalhista, mas deduzi, e isso parece que se confirmou, que o Fagundes gostaria que se formasse um partido nessa área.
A sua intervenção tem interesse já que é uma das primeiras que vem a este fórum defender uma perspectiva não marxista, já que a maioria dos intervenientes voluntária ou involuntariamente se declara de formação marxista. Nesse sentido, a discussão será mais interessante, mas os pontos em comum serão mais difíceis de encontrar, pelos menos o referencial é francamente diferente. E sobre este assunto do diálogo já uma vez intervim aqui, dando também conta de que o diálogo é difícil quando os referencias não são coincidentes.
Mas, como encimei este texto com uma citação sua, gostaria de a comentar. Parece-me que o Fagundes, mais uma vez simplifica as posições de quem quer criticar e depois malha sobre elas, sendo que à partida tem razão porque desfigurou o adversário.
Se reduzirmos o marxismo a uma predestinação da vitória da classe operária é evidente que a sua defesa não deixaria de ser uma questão de fé. Sobre esta sua crítica reporto-o para o texto que escrevi em 2002 e sobre o qual lhe dei as referências e que me parece que responde bem à sua argumentação:
“Hoje ser-se comunista implica pensar-se que outra sociedade é possível, diferente do capitalismo, que a história não terminou e que o seu devir pode conter no bojo a própria destruição da espécie humana, e esta discussão também se deve travar, ou pode dar origem, por vontade própria dos homens e não por qualquer inevitabilidade histórica, de que nós comunistas possuímos a chave, a uma sociedade mais fraterna, com uma nova relação de produção entre os homens e uma diferente estruturação do poder, no fundo, à sociedade comunista antevista por Marx.”
Hoje ser-se marxista ou, se preferirem, adepto do Marx e de Lenine, mas também de todo o conjunto de pensadores que reflectiram sobre o comunismo, não conduz a uma aceitação beata de tudo o que estes autores disseram, mas a um aproveitamento crítico das suas ideias. O pior é que aqueles que se dizem de esquerda e no seu afã de serem modernos, ou de renegarem todo o seu passado, deitam fora o bebé juntamente com a água do banho. Pode-se recorrer a Marx e Lenine como pensadores de esquerda, deve-se fugir de transformar a nossa ideologia em marxista-leninista. É esta, pelo menos, a minha opinião.
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