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Subject: A China e a NEP


Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 23/08/04 12:38
In reply to: António Fagundes 's message, "Discussão sobre a China (tirado do tema "O que é a Renovação Comunista"" on 20/08/04 21:17

A China e a NEP

Tem vindo aqui a ser travada uma discussão, que se azedou, sobre a China e a NEP.
Sobre a China gostaria, sem ser com caracter definitivo e sem recorrer a qualquer estudo aprofundado, de dar também a minha opinião.
Hoje estou convencido que a China não caminha em direcção ao comunismo, simplesmente este grande país introduziu no campo do imperialismo, uma contradição que provavelmente abrirá perspectivas diferentes ao futuro da humanidade.
Ou seja, derrotada a União Soviética e o campo socialista o mundo a dois transformou-se num mundo a um. Há só uma potência dominante, os EUA, que estabelece as regras e que controla toda a economia global. Poder-se-ia dizer, com humor, que se atingiu o estado supremo do imperialismo. As outras grandes economias desenvolvidas, a União Europeia e o Japão, por razões de dependência militar e até culturais e ideológicas, estão dependentes, apesar de esbracejarem bastantes, do imperialismo americano.
É neste contexto que surge a China, retomando aqui, noutro contexto completamente diferente, o que foi a acesso da Alemanha e do Japão ao capitalismo industrial nos finais do século XIX. A China hoje no seu desenvolvimento acelerado (ver o último número da edição portuguesa do “Le Monde Diplomatic”) constitui hoje um possante entrave, mesmo que ainda não assumido directamente, ao imperialismo americano. A crise actual do petróleo, mas também nos cereais e de outros produtos, é um exemplo claro do que afirmo, pois que ao entrar em força no mercado mundial, fez subir descontroladamente os preços desses produtos.
Mas a entrada da China na economia globalizada, e como potência concorrente do imperialismo americano, não será caso único. É possível, que o Brasil e a Índia, mais ano menos ano sigam este percurso. Provavelmente a Rússia, a ver vamos.
O mundo daqui a uns anos, do ponto de vista da correlação de forças mundiais, será diferente daquele que conhecemos hoje e isto trará à esquerda problemas novos relativamente à revolução e à transformação social.
O que é importante é que seja quebrado esse domínio avassalador e asfixiante que o imperialismo americano exerce neste momento à escala planetária.

Quanto á NEP gostaria igualmente de fazer alguns comentários. A NEP foi no seu tempo uma paragem naquilo que os bolcheviques, com a sua inexperiência, pensavam que seria o comunismo. Perante a realidade da falta de cereais nas cidades, Lenine e os seus companheiros repensaram o que estava a acontecer e resolveram parar com as requisições aos camponeses e permitiram que estes vendessem as suas colheitas e mantivessem as suas terras. Foi possível com esta medida, recuperar a economia e acima de tudo matar a fome que grassava no país dos sovietes. Estas medidas foram teorizadas e serviram de motivo para divisões e discussões no seio da direcção dos comunistas. Com Lenine morto, é bom recordar que Trotsky era contra a NEP e Staline aliando-se a Bukharine para a defender. Este último teorizou posteriormente que deveria ser por esta via que se deveria processar o desenvolvimento do socialismo na URSS, ou seja a passo de caracol e em conjunto com os camponeses. Não conseguiu levar a sua avante e Staline impôs a colectivização forçada e a industrialização, aquilo que alguns autores chamaram a acumulação primitiva do socialismo. Com isto quero dizer que se a NEP foi inicialmente uma paragem retemperadora de forças, serviu posteriormente para alguns teóricos a proporem com modelo possível.
A industrialização forçada e a colectivização dos campos com o consequente arrastar de milhares de camponeses para as cidades com vista a servirem na indústria, constitui no caso da URRS, o mesmo que se passou na maioria dos países industrializados de capitalismo desenvolvido: o abandono dos campos pelos camponeses, a mecanização da agricultura, a industrialização e a exploração dos seus trabalhadores de modo a obter o capital necessário para mais investimentos. Esta industrialização e aqueles que dela aproveitaram esteve provavelmente na origem da nova classe de burocratas que veio a dominar o Partido e a sociedade soviética, permitindo classificar esta, como o fazem muitos autores, como uma sociedade de capitalismo de estado.
Esta industrialização, que provavelmente correspondia às aspirações da maioria do Partido, e que foi de certo modo ratificada pelo XVII Congresso do PCUS, em 1934, o chamado “Congresso dos Vencedores”, e que teve, o apoio, sincero ou não, dos opositores de Staline, como Bukharine, permitiu à União Soviética ter infra-estruturas suficientes para resistir ao nazismo e tornar-se no pós Segunda Guerra uma potência dominante, mas teria provavelmente muito pouco a ver com a construção do comunismo, como os pais fundadores do socialismo previam.

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Re: A China e a NEPLuis Blanch23/08/04 13:33
Re: A China e a NEPAntónio Fagundes23/08/04 17:13


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