Subject: Discussão sobre a China (tirado do tema "O que é a Renovação Comunista"
Author:
António Fagundes
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Date Posted:20/08/04 21:17
“Um País 2 Sistemas, ou modernamente, ‘socialismo de mercado com características chinesas’". Eis um bom tema para discussão. Aqui vai, portanto, o meu contributo.
A China – mais notoriamente do que a extinta União Soviética, porque nela coexistem o chamado socialismo com o capitalismo privado – é exemplo que deveria ser estudado com atenção pelos comunistas marxistas, marxistas-leninistas e marxistas-leninistas-maoistas, para dele tirarem algumas ilações que se impõem.
Deixando de lado os aspectos meritórios da revolução nacional e democrática dirigida pelos comunistas chineses, que nunca será de mais realçar por ter proporcionado a conquista da dignidade e da independência nacional, a China constitui o paradigma da falência do chamado modo de produção comunista, que em lado algum conseguiu ultrapassar a fase de socialismo e foi incapaz, de todo, de competir com o capitalismo privado.
Apesar dos entraves à livre empresa que o regime ainda mantém, os elevados níveis de desenvolvimento económico atingidos a partir da abertura ao capitalismo privado, que com a liberalização dos mercados terá ainda, eventualmente, condições para se manter por alguns anos sem alterações muito significativas, são exemplo de duas coisas: por um lado, que o capitalismo privado é susceptível de proporcionar índices de desenvolvimento mais elevados e a maior ritmo; por outro lado, que a conjugação do regime da livre empresa com o cerceamento da liberdade sindical, do direito de greve (e com os baixos salários que da sua conjugação resulta) e de muitas outras liberdades sociais e políticas é quase o paraíso para a exploração capitalista.
É este “quase paraíso” – conjugando sectores de economia estatizada ou cooperativa de produção de matérias-primas básicas, de produtos agrícolas ou de grande intensidade de mão-de-obra e de condições gerais de produção com sectores de economia privada de produtos industriais de grande composição orgânica de capital, promovendo o emprego e a transferência da força de trabalho do campo para a indústria e aproveitando as aberturas dos mercados – que os comunistas chineses, com o maior dos despudores, designam por “socialismo de mercado”.
A mistificação que o socialismo constituiu – não apenas o socialismo chinês ou o soviético, mas o socialismo em geral – é agora ultrapassada com esta outra mistificação do “socialismo de mercado”. Ainda bem que apesar desta farsa uma parte do povo e dos trabalhadores assalariados chineses passou a usufruir de salários e de um nível de vida um pouco melhores. Mas quando a luta por uma vida melhor levar à quebra dos espartilhos que ainda hoje impedem a livre circulação das pessoas e à rotura do regime ditatorial dos burocratas comunistas, o afluxo de camponeses às cidades e às zonas industriais, os problemas habitacionais, o desemprego crescente (com a incapacidade dos afluxos de capital em absorverem um volume acrescido de força de trabalho) conduzirão à agudização dos conflitos sociais de toda a ordem, os quais acabarão por fazer implodir o regime.
Por enquanto, a partilha do poder entre a burocracia comunista e a burguesia (que chegou ao cúmulo da abertura do partido à filiação de capitalistas privados, o que não sendo totalmente novidade, porque no tempo da revolução houve simbioses parecidas, é revelador do despudor da manipulação a que o regime se permite…) parece convir a ambas. Resta saber por quanto tempo se aguentará. Eventualmente, o tempo que os trabalhadores assalariados chineses demorarem a construir o seu próprio movimento sindical e a erigirem a sua própria representação política, se para tanto tiverem capacidade de resistência e de iniciativa.
Oxalá cá estejamos para ver.
António Fagundes.
> Como refere Ramonet no Monde Diplomatic dizia-se
> antes "No dia em que a China despertar
>"...sugerindo a ideia de que pairava uma ameaça
> sobre o planeta .
>A China ,de facto ,tem vindo a mostrar a sua
>capacidade para superar com exito as
>circunstancias que afectavam a sua evolução ;a
>classe política demonstrou ,nas ultimas décadas ,
>um elevado pragmatismo e sensibilidade no
>sentido de preservar as ideias de Deng Xiaoping
>que abria vias de crescimento económico para o
>seu país através da compatibilização entre o
>regime comunista e a economia de mercado - Um
>País 2 Sistemas, ou modernamente, "socialismo de
>mercado com características chinesas".
>
>Para a evolução política chinesa podem ser
>referidos como factores mais relevantes o
>pragmatismo,o continuismo,o gradualismo e a
>influência que parece ter tido o fim do sistema
> soviético.
>O que parece mais controvertido é o espectáculo
> observável ,não de uma coexistência de
>pacificação entre uma China agrária , tradicional
> e pobre vivendo paredes meias com uma China
>urbana onde floresce uma burguesia industrial e
>comercial cercada fisicamente por um
>sub-proletariado que se amontôa nas cinturas
>urbanas e que foge à miséria dos campos.
>Estas contradições crescentes têm sido iludidas
>pelos resultados espectaculares das exportações
>que tem permitido uma descolagem económica de
>crescimento do PNB acima dos 9 por cento.
>A par disto a China já dispõe de um grande
>parceiro económico : os USA que, assinale-se , têm
> um deficit comercial com a China de 130 mil
>milhões de dólares ,só em 2003...
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