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Subject: Re: A China e a NEP


Author:
António Fagundes
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Date Posted: 23/08/04 17:13
In reply to: Jorge Nascimento Fernandes 's message, "A China e a NEP" on 23/08/04 12:38

Fernandes.

A discussão não azedou, tornou-se insonsa, o que é um pouco diferente.

A sua, por exemplo, já tem outros condimentos.

Esperemos que apareçam ainda outros tempêros, para animar isto um pouco mais.

António Fagundes.

>A China e a NEP
>
>Tem vindo aqui a ser travada uma discussão, que se
>azedou, sobre a China e a NEP.
>Sobre a China gostaria, sem ser com caracter
>definitivo e sem recorrer a qualquer estudo
>aprofundado, de dar também a minha opinião.
>Hoje estou convencido que a China não caminha em
>direcção ao comunismo, simplesmente este grande país
>introduziu no campo do imperialismo, uma contradição
>que provavelmente abrirá perspectivas diferentes ao
>futuro da humanidade.
>Ou seja, derrotada a União Soviética e o campo
>socialista o mundo a dois transformou-se num mundo a
>um. Há só uma potência dominante, os EUA, que
>estabelece as regras e que controla toda a economia
>global. Poder-se-ia dizer, com humor, que se atingiu o
>estado supremo do imperialismo. As outras grandes
>economias desenvolvidas, a União Europeia e o Japão,
>por razões de dependência militar e até culturais e
>ideológicas, estão dependentes, apesar de esbracejarem
>bastantes, do imperialismo americano.
>É neste contexto que surge a China, retomando aqui,
>noutro contexto completamente diferente, o que foi a
>acesso da Alemanha e do Japão ao capitalismo
>industrial nos finais do século XIX. A China hoje no
>seu desenvolvimento acelerado (ver o último número da
>edição portuguesa do “Le Monde Diplomatic”) constitui
>hoje um possante entrave, mesmo que ainda não assumido
>directamente, ao imperialismo americano. A crise
>actual do petróleo, mas também nos cereais e de outros
>produtos, é um exemplo claro do que afirmo, pois que
>ao entrar em força no mercado mundial, fez subir
>descontroladamente os preços desses produtos.
>Mas a entrada da China na economia globalizada, e como
>potência concorrente do imperialismo americano, não
>será caso único. É possível, que o Brasil e a Índia,
>mais ano menos ano sigam este percurso. Provavelmente
>a Rússia, a ver vamos.
>O mundo daqui a uns anos, do ponto de vista da
>correlação de forças mundiais, será diferente daquele
>que conhecemos hoje e isto trará à esquerda problemas
>novos relativamente à revolução e à transformação
>social.
>O que é importante é que seja quebrado esse domínio
>avassalador e asfixiante que o imperialismo americano
>exerce neste momento à escala planetária.
>
>Quanto á NEP gostaria igualmente de fazer alguns
>comentários. A NEP foi no seu tempo uma paragem
>naquilo que os bolcheviques, com a sua inexperiência,
>pensavam que seria o comunismo. Perante a realidade da
>falta de cereais nas cidades, Lenine e os seus
>companheiros repensaram o que estava a acontecer e
>resolveram parar com as requisições aos camponeses e
>permitiram que estes vendessem as suas colheitas e
>mantivessem as suas terras. Foi possível com esta
>medida, recuperar a economia e acima de tudo matar a
>fome que grassava no país dos sovietes. Estas medidas
>foram teorizadas e serviram de motivo para divisões e
>discussões no seio da direcção dos comunistas. Com
>Lenine morto, é bom recordar que Trotsky era contra a
>NEP e Staline aliando-se a Bukharine para a defender.
>Este último teorizou posteriormente que deveria ser
>por esta via que se deveria processar o
>desenvolvimento do socialismo na URSS, ou seja a passo
>de caracol e em conjunto com os camponeses. Não
>conseguiu levar a sua avante e Staline impôs a
>colectivização forçada e a industrialização, aquilo
>que alguns autores chamaram a acumulação primitiva do
>socialismo. Com isto quero dizer que se a NEP foi
>inicialmente uma paragem retemperadora de forças,
>serviu posteriormente para alguns teóricos a proporem
>com modelo possível.
>A industrialização forçada e a colectivização dos
>campos com o consequente arrastar de milhares de
>camponeses para as cidades com vista a servirem na
>indústria, constitui no caso da URRS, o mesmo que se
>passou na maioria dos países industrializados de
>capitalismo desenvolvido: o abandono dos campos pelos
>camponeses, a mecanização da agricultura, a
>industrialização e a exploração dos seus trabalhadores
>de modo a obter o capital necessário para mais
>investimentos. Esta industrialização e aqueles que
>dela aproveitaram esteve provavelmente na origem da
>nova classe de burocratas que veio a dominar o Partido
>e a sociedade soviética, permitindo classificar esta,
>como o fazem muitos autores, como uma sociedade de
>capitalismo de estado.
>Esta industrialização, que provavelmente correspondia
>às aspirações da maioria do Partido, e que foi de
>certo modo ratificada pelo XVII Congresso do PCUS, em
>1934, o chamado “Congresso dos Vencedores”, e que
>teve, o apoio, sincero ou não, dos opositores de
>Staline, como Bukharine, permitiu à União Soviética
>ter infra-estruturas suficientes para resistir ao
>nazismo e tornar-se no pós Segunda Guerra uma potência
>dominante, mas teria provavelmente muito pouco a ver
>com a construção do comunismo, como os pais fundadores
>do socialismo previam.

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