Subject: Re: Cientificidade em Ciências Sociais (já agora...)
Author:
Guilherme Statter
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Date Posted:27/08/04 0:19 In reply to:
António Fagundes
's message, "Re: Cientificidade em Ciências Sociais (já agora...)" on 26/08/04 19:40
Fagundes,
Diz-me que:
>Com tantas e frequentes referências à escola e a
>cursos, etc. e tal, bem me queria parecer que você
>pertenceria a qualquer academia. Se é um estudioso,
>você o diz, só lhe ficará bem! Mas, cuidado, que nas
>academias ensinam muito as escolásticas!
Não "pertenço" a nenhuma academia...
Só para que conste, esclareço que só consegui acabar a licenciatura (em Sociologia do Trabalho) já entrado nos 50's... O resto veio por embalagem... Tomar o freio nos dentes, como soe dizer-se.
Até lá (e mesmo depois... e ainda) foi só trabalhar..
>Em relação à lei da queda tendencial da taxa de lucro
>(que julgo não ter sido a única com tão pomposa
>designação), não sei se a sua demonstração está
>errada, porque a desconheço e agora não dá tempo para
>lê-la, mas sei que a do Marx está. Não se prenda com
>as contra-tendências, tome apenas este cheirinho dos
>pressupostos de base: taxa de mais-valia constante;
>aumento da composição orgânica conduz necessariamente
>à queda da taxa de lucro. É claro, como nenhum dos
>dois pressupostos ocorre habitualmente, a tal lei nada
>explica, mesmo que a taxa de lucro desça (o que, a
>acontecer, ficará a dever-se a outra causalidade)!
Pois é... anda a Humanidade há vários milénios (e mais acelaradamente ao longo dos últimos dois séculos) a fazer acumulação (a aumentar a composição orgânica do capital - social, total agregado... auto-estradas... caminhos de ferro, aeroportos, etc...); bem que Marx sempre utilizou a expressão "SOCIALMENTE" necessário (para se referir ao "trabalho" ("vivo" e "armazenado"), para ainda continuarmos a pensar que "não senhor, não há aumento constante da composição orgânica do capital"...
Mas está bem, devo ser só eu a ver aquilo... o tal aumento constante do "capital constante"... Paciência.
>Sobre o determinismo. Falava-se do determinismo
>histórico da substituição do capitalismo pelo
>comunismo, não? Ora quem o defende e deseja não são os
>humanos, mas uma parte deles, os comunistas, não?
>Então isso de falar-se na vontade dos homens refere-se
>à vontade de apenas alguns, não?
Aqui o Fagundes extrapola (com legitimidade...) das minhas palavras e por isso há que esclarecer:
Claro que teremos que levar em linha de conta (quer na "análise", quer eventualmente na "engenharia") as vontades de todos. As de alguns, se calhar muitos, apenas por omissão ou consentimento. As de outros (as "minorias activas"...) claro que em sentidos, o mais das vezes (estou a especular...) divergentes e até radicalmente opostos.
O que digo é que "o resultado dessas convergências, divergências e oposições de vontades, não está determinado". Ou seja, nada garante (a não ser, eventualmente, com algum, maior ou menor grau de probabilidade...) a chegada do "socialismo" ou do "comunismo".
Como julgo já ter explicitado, tudo depende da "vontade humana".
>Por outro lado, está-se mesmo a ver: o feudalismo e o
>capitalismo estavam também pré-determinados, tal como
>o comunismo o estará! Ou, não o estando, foram o
>resultado da vontade dos homens em instaurá-los. Mais
>interessante, ainda, é essa de o resultado das lutas
>das classes parecer "que estava determinado", então, é
>mesmo saborosa! Deve ser pelas lentes embaciadas, que
>nos fazem confundir o ser com o parecer!
Confesso que me escapa a ironia... mas vamos a ver se eu me entendo (até a mim mesmo...)
A observação do passado (a História) não é exactamente a mesma coisa que "previsão do futuro"...
Se ("a posteriori") algum marxista afirmar que a passagem do Feudalismo ao Capitalismo (a qual terá acontecido por via da luta de classes - de propósito não digo que sim nem que não), "até parecia que estava determinada", estaríamos perante uma forma de "determinismo histórico". Se ainda por cima, um filósofo da História descobre uma lei da evolução histórica da Humanidade e a formula "urbi et orbi" a tal "lei" por si descoberta, então parece fácil "dar o salto lógico" da análise histórica para a "engenharia social". De modo a facilitar/acelerar (?...) a transição para um novo "modo de produção".
Só que, como resulta visível "a posteriori" (... "isto" ao fim e ao cabo são tudo "ciências históricas"), que afinal a "coisa" (a tal transição...) era MUITO mais complicada. Que havia muitos "factores intervenientes"... que afinal não havia mesmo uma "garantia" que as coisas iam suceder desta ou daquela maneira...
Dessa "disjunção cognitiva" resulta a necessidade de ler outra vez as "escrituras", e ler com outros olhos. E mesmo sem alterar o que lá está escrito acaba por se "ler" de outra maneira... Acontece.
>Confusão do mesmo tipo é a do pleonasmo do subir para
>cima e do descer para baixo. Acontece, no caso da
>determinação, que os verbos ser e estar não são nela
>sinónimos (como poderão ser noutros casos). Mesmo
>assim contradição minha? Delícia!
Esta não percebi. Em todo o caso aquela úlima contradição (penso que era a essa que se referia o Fagundes), era MINHA (de mim, Statter...). Nunca lhe sucedeu fazer ironia consigo mesmo?...
>E, por falar em livre arbítrio: decido atribuir-lhe
>mais uns quantos pontos de inteligência, ainda que
>você ache que tem muita. Está decidido! Não se pode?
>Isto do livre arbítrio é só para o campo social? Fica
>para logo que seja possível!
Continuo a não perceber... Pelos vistos aquela da "inteligência" (que ainda por cima eu julgarei ter muita... eh eh eh), afinal é mesmo pouca... Já não consegui perceber aquela do Penim Redondo... Deve ser da idade 8-(
Cordiais saudações,
Guilherme Statter
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