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Subject: Re: QUEM TEM MEDO DE ERRAR?...


Author:
António Fagundes
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Date Posted: 27/08/04 20:13
In reply to: Guilherme Statter 's message, "QUEM TEM MEDO DE ERRAR?..." on 27/08/04 11:10

Statter.

O Fagundes está-se nas tintas para ter razão ou deixar de ter. Basta-lhe o gozo de ir participando nas conversas (com melhor ou pior ironia) e de tentar contribuir para que as discussões se vão aprofundando.

Mas constato que isto de conversar com fiéis dá uma trabalheira dos diabos. Já a minha avó dizia que "o pior cego não é o que não vê, mas aquele que não quer ver", e os adeptos comunistas pertencem a esta categoria.

Por muito que se lhes diga isto ou aquilo, em vez de fazerem um esforço de reflexão o que parece interessar-lhes é negar as evidências (quanto mais o que não é simples evidência...), escudando-se frequentemente no "Marx nunca disse isso". O seu velho hábito do uso da citação impele-os a questionar os outros para citarem onde o Marx disse isto ou aquilo, em vez de se preocuparem em conhecer a obra do Marx e não a sua vulgarização.

Ora, em relação ao determinismo, por exemplo, o Marx apontou o comunismo como etapa de sucessão necessária do capitalismo, pela invocação do conhecimento das leis da evolução histórica; mas também produziu outras asserções, por exemplo, que as formas que os homens engendram para produzir as condições de existência são independentes da sua vontade e está para além dela. Não só sobre este tema, mas sobre outros, a obra de Marx contém ambiguidades, contradições e erros, pelo que não percebo porque persistem em endeusá-lo em vez de aprenderem com os erros dele. Será com receio de perderem a fé ou porque não alcançam sequer os erros?

Porquê, acreditando na inevitabilidade do comunismo, o Marx participou na Internacional (dos Trabalhadores)? Bem, pois o Marx não era apenas um investigador, mas um político; e um partido político servia precisamente para difundir a ideologia comunista, para organizar o proletariado, ajudá-lo a ganhar consciência dos seus interesses e para acelerar o fim do capitalismo, pelo esgotamento das suas potencialidades de desenvolvimento através da agudização das lutas das classes. É como político, e não tanto como investigador, que o determinismo do comunismo está mais presente na obra de Marx.

Mas porque crêem os comunistas que o capitalismo será substituído pelo comunismo? Apenas pela sua vontade? Porque entendem que o comunismo é melhor que o capitalismo? Ou porque alguém afirmou que ocapitalismo perecerá (e disso também eu não tenho dúvidas!) e o comunismo o substituirá? E, já agora, porque não admitem outras hipóteses, a substituição do capitalismo por outros modos de produção?

Os comunistas deveriam tentar desprender-se dos seus preconceitos, em grande parte derivados de vulgarizações da obra de Marx complementadas com acrescentos dos discípulos, e começar a ler o Marx. Com vagar, que o tempo não urge, e quando for complicado ou difícil, recorrendo a ajudas. Pode ser que passem a compreender melhor o Mundo!

António Fagundes.

>"Tudo isto" começou porque eu tive o desplante de
>dizer esta coisa: "que não atribuíssem a Marx a ideia
>pateta de que as suas “previsões ciêntíficas” tivessem
>um caracter de inelutavel inevitabilidade.".
>Tal afirmação provocou natural comoção... Toda a gente
>sabe que "marxismo" = "materialismo dialéctico" =
>"determinismo histórico", etc. etc...
>Tenho por vezes (também aqui) criticado a "metodologia
>da dicotomia" (uma coisa ou afirmação ou está
>"completamente certa" ou está "completamente errada")
>e, pelos vistos, acabei por incorrer no mesmo êrro.
>Vá lá que, felizmente, nestas coisas estou bem
>resguardado: Como dizia o falecido Prof. Bento de
>Jesus Caraça, "se não temo o êrro é porque estou
>sempre preparado para o corrigir"... Às vezes, quando
>"se mete o pé na argola", é bom a gente ter assim,
>para invocar, uns nomes merecidamente prestigiados!...
>Mas auto-ironias à parte, vamos ao que me importa:
>1. O António Fagundes tem toda a razão quando diz
>"Para o bem e para o mal, a obra do Marx não é
>constituída por um contínuum em crescendo, tem altos e
>baixos, ambiguidades, contradições e erros (para além,
>é claro, de muita coisa boa), não se resume a “O
>Capital” e integra também o “Manifesto do Partido
>Comunista”".
>2. E tem ainda mais razão quando diz:
>"Mas é facto que os marxistas e os que tal se afirmam
>contribuíram, mais do que o próprio Marx, para as
>vulgarizações que lhe são atribuídas".
>3. Tenho consciência de fazer parte de uma "imensa
>minoria" (como dizia um slogan da Rádio Voxx), quando
>defendo a ideia de que Marx
>- não só era "determinista" mas também que
>- não afirmava ou defendia a ideia de "que as suas
>“previsões ciêntíficas” tivessem um caracter de
>inelutavel inevitabilidade.".
>Embora já tenha aqui dito que não tenho a pretensão de
>ser "marxiano" (conhecedor intímo das minudências
>todas dos escritos de Marx ao longo da sua vida), mas
>apenas que me concentrei na Teoria do Valor, Tendencia
>Decrescente da Taxa de Lucro (assinalei aí um êrro n
>argumentação de Marx e identifiquei também pelo menos
>uma consequência inerente à sua exposição mas que ele
>- pelos vistos - não identificou), volto a repeti-lo:
>"Não tenho a pretensão de ser um "'erudito marxiano'".
>E, portanto, não estou certo de poder encontrar
>"provas" - NA OBRA DE MARX - daquilo que comecei por
>afirmar (a tal "ideia pateta" das previsões...)
>Numa primeira busca à procura de elementos que me
>permitissem confirmar ou infirmar a minha atrevida
>afrimação lá de cima, constato apenas esta coisa
>simples: A polémica é mais do que muita, mas a
>esmagadora maioria (a começar nas enciclopédias... e
>estará tudo dito) diz que Marx era um determinista. Y
>punto!...
>Aperecem-me uns minoritários a falar do marxismo
>libertariano (ou libertário...), confirmei também que
>Gramsci defendia a ideia do não-determinismo económico
>em Marx, tropecei em discussões sobre "marxismo
>analítico", "marxismo crítico" e "marxismo
>ciêntífico"... Mas ainda não encontrei em Marx,
>propriamente dito a tal defesa (pelo menos explícita
>ou sistematizada) da ideia do determinismo. Se calhar
>porque, como parecem defender os mais ortodoxos (ou
>"escolásticos"... dos "ciêntíficos"?...), TODA a obra
>de Marx estará tão imbuída de "determinismo", que será
>uma patetice (neste caso minha) estar à procura da tal
>"defesa explícita e sistematizada".
>Devo por fim, no entanto, assinalar esta coisa para
>mim (e para muito boa gente) intrigante:
>Se Marx era um defensor do "determinismo" - e se
>defendia que era inelutável a (re)evolução da
>Humanidade para o Socialismo e o Comunismo, porque
>(para quê...) terá fundado a Internacional Socialista?
>Só para concluir: Ao colocar "determinismo" entre
>aspas quero significar que o conceito de determinismo,
>ele mesmo, parece também não ser pacífico. Eu por mim
>restrinjo-me ao significado de "aquilo que está
>determinado ou inscrito na natureza das coisas" (como
>em Astronomia ou no código genético), sendo que nos
>caso das coisas da Vida, (o código genético), além de
>termos que considerar as diversidades e o Meio
>Ambiente, haverá também que ter a prudência de
>reconhecer que não sabemos tudo. Pelo que, no que diz
>respeito a "previsões ciêntíficas" nem tudo está
>determinado.
>Cordiais saudações,
>Guilherme Statter

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Replies:
Subject Author Date
Re: QUEM TEM MEDO DE ERRAR?...Guilherme Statter28/08/04 14:58


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