Subject: Comentários a uma carta de um jovem comunista
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted:16/12/04 19:35 In reply to:
Jorge Nascimento Fernandes
's message, "Comentários a uma carta de um jovem esquerdista" on 16/12/04 17:08
>A sua prosa, contrariamente, penso eu, a outros
>escritos seus sobre estes assuntos, é de uma grande
>virulência e refaz, principalmente em relação ao PREC,
>tudo aquilo que os esquerdistas, de todos os matizes,
>disseram sobre o PCP e Cunhal.
Afinal você não tem nada de substancial a criticar-me, Fernandes.
Muito rapidamente:
1. Em lado algum me viu criticar a revolução democrática nacional e, muito menos, o levantamento nacional armado contra o fascismo. Isso são assuntos em que me não meti, até porque, como já disse, não li nem tenciono ler o 'Rumo á Vitória'. Você insiste em confundir-me com o Chico e já lhe disse que faz mal. O que me viu criticar foi a obliteração teórica, ademais feita de forma fraudulenta, da revolução socialista.
2.
Quanto ao comportamento do PCP no PREC, parece que estamos ambos de acordo em que foi dúplice, por ambiguidade ou hesitação. É a história do copo meio cheio ou meio vazio. Você acha que participou, e até demais. Eu acho que andou a fazer de conta e borregou-se assim que pôde, como o próprio Cunhal confirma entre dentes.
3.
Você afirma que o abandono da ditadura do proletariado foi discutido, no único ponto em que me desmente factualmente. Muito gostava de saber mais alguma coisa sobre isso, onde pode ser de facto que esteja enganado. Até aos dias de hoje, que eu saiba, não chegou qualquer registo dessas discussões, como os há, abundantes, de quando o mesmo se passou no PCF. Como é óbvio, só me interessam discussões sérias, de gente que conhecia a fundo este conceito marxista essencial. Não me venha com discussões de secção em que meia dúzia de "camaradas" chegam a acordo que, de facto, "essa coisa da ditadura do proletariado é chato, pá, é melhor tirar, o pessoal diz que ainda agora saímos duma e já estes gajos nos querem impôr outra, é melhor cortar isso, pá, o pessoal não compreende".
O que você tem a criticar-me, Fernandes, é o tom. Diz que eu aqui sou muito virulento, ao contrário de outras ocasiões em que gostou mais de mim. E, é claro, para si, violência de tom conota logo com "esquerdismo" que é o seu terror, a sua angústia nocturna, o seu desespero empapado em suor.
Não, a violência do meu tom não tem nada a ver com "esquerdismo". Por acaso conheci, muito recentemente, o José Mário Branco, mas até nem fizemos grande "química". Os grupos "esquerdistas" que você cita abundantemente (mais os seus feitos e propósitos sanguinários) são-me completamente estranhos. Não me concebo a militar num partido que não seja de massas, prestigiado, sério. Mas revolucionário, obviamente.
E o mesmo vale para o meu jovem correspondente, que tem 21 anos. A propósito, nunca, mas nunca mais se atreva a chamar "esquerdista" ao meu correspondente, seu renegadozito amargo e seco.
E aqui estamos a chegar à razão da violência da minha linguagem (que, aliás, já emerge de novo).
Eu acho que a única salvação possível para o comunismo português está nesta geração nova se armar, pela sua própria iniciativa, pelos seus próprios meios (pois que é inútil esperar algo de vocês), e dar-vos uma grande carga de marmeleiro, daquelas de vos rachar mesmo de alto a baixo.
Isto vale tanto para os "renovadores", como para os "ortodoxos", como para os simplesmente ignorantes, crápulas e oportunistas. É preciso varrer-vos a todos, aproveitando-se muito poucos, mas mesmo estes só depois de levarem uma grande e real sova.
É triste mas é assim. É uma necessidade histórica inquestionável. E depois sabe, como esteta, sinto também uma certa atracção por esta ideia da emergência de uma juventude pletórica, bruta e confiante a espancar sem piedade toda esta carne velha, gasta e inútil que para aí anda a remoer, da forma mais sumptuosa e ruidosamente estéril, as suas frustrações egoístas e pequenas misérias rancorosas.