Author:
José Manuel Correia
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Date Posted: 31/08/04 20:22
In reply to:
paulo fidalgo
's message, "intensidade de trabalho e força de trabalho" on 31/08/04 16:43
Fidalgo.
Você já demonstrou anteriormente que é dado a confusões e que tem um vocabulário restrito. Para que possamos manter qualquer conversa, faça-me, portanto, um favor: leia-me com atenção!
Depois, aprenda a pensar um pouco, não se precipite, para não dizer asneira grossa e não cair no ridículo.
Nestas conversas não se pretende produzir conhecimento; quanto muito pode-se divulgar algum que haja sido já produzido. Embora a validade do conhecimento seja em geral adquirida por sufrágio, o que denuncia a sua precariedade, é desnecessário expressarmo-nos aqui por apoios sufragando esta ou aquela argumentação. Tentemos pensar pelas nossas cabeças e retorquir com a nossa própria argumentação. Está bem?
Vou tentar ajudá-lo a esclarecer as suas confusões, respondendo parágrafo por parágrafo (ou grupos de parágrafos), embora não seja o melhor encadeamento.
1-Isto do endoscópio não tem nexo, mas, enfim, se se refere ao valor (de troca) do objecto endoscopia, já imaginou prodígio maior do que o operador de endoscópios (a força de trabalho) fazer endoscopias sozinho... sem endoscópio? Porque do que se falava era se o produto (e, logo, o sobreproduto, e as mercadorias que o corporizam) era criado unicamente pela força de trabalho (a mercadoria vendida pelo trabalhador e adquirida pelo capitalista) ou pela inter-relação entre ela e os meios de trabalho (cuja propriedade não pertence ao trabalhador nem foram por este vendidos);
2-Nos exemplos que apresentei sobre a taxa de exploração, não afirmei que os trabalhadores tivessem qualificação de nível diferente que, eventualmente, pudesse justificar qualquer diferenciação salarial. O que estava em causa era a taxa de mais-valia permitir aos marxistas afirmar que um deles era mais explorado do que o outro, nomeadamente aquele cujo salário era mais elevado, tinha o menor período e intensidade do trabalho e o exercia com menor penosidade, só porque por diferente produtividade dos processos produtivos em que estavam inseridos (por diferente composição orgânica do capital ou outra qualquer razão) a taxa de mais-valia era diferente;
3-Em lado algum afirmei que a exploração esteja ligada a aspectos físicos; os marxistas é que atribuem de forma arbitrária, e contraditória até mais não, o valor da força de trabalho a um suposto dispêndio de cérebro, de nervos, de músculos e de tendões (e, já agora, porque não, também dos ossos…), ou engendraram uma unidade de medida física para uma grandeza social de relação entre pessoas (o valor de troca). Mas não deixa de ser elucidativo do nível a que um certo marxismo desce ao afirmar que o “custo de (um) trabalhador que mexe em botões ser maior do que o custo de um trabalhador que anda nas vindimas do Douro. Entendidos nesse custo os custos de manutenção e de reprodução dessas diferentes mãos de obra”;
4-Para além das muitas confusões sobre o que determina o “grau de exploração”, o Fidalgo acaba por espelhar o essencial da concepção marxista sobre a exploração: serem “arrancados” ao trabalhador, a favor do capitalista, o que ele produziu além do que lhe foi pago. O problema da concepção marxista da exploração reside em dois níveis: o que cria o produto (apenas o trabalho vivo, a força de trabalho) e o direito do trabalhador ao sobreproduto criado (logicamente, na perspectiva marxista, por ele), apesar de ter vendido pelo valor dela a mercadoria que supostamente o teria exclusivamente criado. A minha teoria da exploração não é esta, como está bem explícito na minha intervenção, e a resumo novamente: na troca, o vendedor de uma mercadoria cede a utilidade e o benefício que o comprador obtém com ela; a força de trabalho não é factor produtivo necessário e suficiente para a produção das mercadorias em geral; as mercadorias não são vendidas pelos seus valores (marxistas); por muitas razões, a força de trabalho é vendida abaixo do valor pela relação de forças em que se realiza a sua alienação (valor que o Estado burguês se encarrega de não permitir que ultrapasse dimensão que ponha em causa uma determinada taxa de lucro).
Por fim, reconheço que isto de “mexer em botões tem muito que se lhe diga”, nomeadamente se visto na perspectiva de quem mexe nos botões!
JMC.
>
>apoio os (bons) argumentos do Statter
>
>acrescento que Correia ainda não nos mostrou como,
>para além da força de trabalho, poderá acontecer
>criação de valor. Se não é a dita cuja, como é que se
>explica? Como é que o endoscópio, talvez uma das mais
>prodigiosas máquinas, produz sozinho endoscopias?
>Aliás, isto nem se pode falar em contestação ao
>marxismo mas a toda a economia clássica.
>
>O argumento do homem que mexe botões em ambiente
>climatizado, e o outro que se esfola em ambiente
>inóspito, da agicultura de sol a sol, tipo vindimas no
>douro, não poder ser mais explorado aquele do que
>este, é realmente um ponto uma bocado antigo.
>
>Correia acha que a intensidade - física, consumo de
>músculo, cérebro e tendões - do trabalho é que se
>associa com exploração. Assim, a luta dos explorados,
>se Correia porventura tem em vista contribuir para
>alguma justiça neste mundo, é antes de tudo a luta dos
>que trabalham intensamente e em ambiente inóspito. E
>tanto quanto possível, direi eu talvez exorbitando do
>pensamento de Correia, deve essa luta procurar
>alcançar um trabalho menos intenso e mais climatizado.
>
>Sem querer desvalorizar a importãncia da luta por
>melhores condições de trabalho que eliminem a
>penosidade e a monotonia do dito trabalho, não posso
>deixar de sublinhar que Correia parece estar já a
>afastar-se do que é crucial em marx e que é a crítica
>do capitalismo e da convocação à luta contra o dito.
>
>De facto o que determina o grau de exploração é em
>primeiro lugar o diferencial entre o valor produzido
>no final do ciclo de produção e o valor remunerado
>pelo valor da força de trabalho.
>
>Se o homem dos botões recebe 1200 euros de ordenado e
>produz 12000 euros de valor no seu tempo mensal de
>trabalho são-lhe arrancados a favor do capitalista
>10800.
>
>Se o operário do Douro (geralmente são operários
>agrícolas) recebe 600 e o valor da produção no final
>do ciclo de produção e do seu tempo mensal de trabalho
>for de 2000 são-lhe arrancados 1600, muito menos de
>facto do que ao homem dos botões.
>
>Portanto, marxismo e luta contra o capitalismo nada
>tem que ver, ou pouco tem que ver, com uma
>identificação genérica com os pobres e mal pagos e
>sujeitos a grandes intensidades de rítmos de trabalho.
>Tem obviamente a ver com isso, mas tem sobre tudo a
>ver com o que é arrancado ao trabalhador a favor do
>capitalista.
>
>E, nesse plano, emerge em termos subjectivos o papel
>de sujeito histórico porventura até mais enérgico e
>amadurecido dos trabalhadores altamente preparados e
>eventualmente bem remunerados porque neles a noção de
>exploração é mais nítida e flagrante. Por outro lado,
>são estes trabalhadores e não necessáriaemente os
>indiferenciados que mais clara noção têm do seu papel
>na organização da produção e da sua indispensabilidade
>na organização desse processo. O mexer em botões tem
>muito que se lhe diga.
>
>Finalmente, o que determina a diferença das
>remunerações entre o homem dos botões e o operário do
>Douro, não tem obviamente a ver com o facto de o
>trabalho de um levar à criação de um valor de
>magnitude diferente do outro. Tem, segundo se pode
>resumidamente argumentar, com o facto do custo de
>trabalhador que mexe em botões ser maior do que o
>custo de um trabalhadore que anda nas vindimas do
>douro. Entendidos nesse custo os custos de manutenção
>e de reprodução dessas diferentes mãos de obra
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