Subject: Re: Estórias da carochinha: A Politica Prevalece
Author:
Luis Blanch
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Date Posted: 3/09/04 10:07 In reply to:
António Fagundes
's message, "Estórias da carochinha: o valor" on 3/09/04 0:06
Neste particular ,pelo menos , o amigo Fagundes tem razão - O elemento político ,a política como referiram os clássicos revolucionários ,nunca se separa do social e do económico, nenhuma "muralha da China " os isola .
Através das superestruturas (e a politica é uma superestrutura ) os homens tomam consciência dos problemas e dos conflitos ,procurando encaminhá-los para a solução. Mas o fenómeno politico ,ainda que contenha aparências e ilusões , não se reduz ,de facto , a uma aparência . Neste sentido , é mesmo mais rico que a sua essência e que a base em que assenta , o económico os tais factores "contabilisticos". E, muitas vezes mais real.
No momento de crise , da Crise ,esta riqueza e esta realidade dos fenómenos polìticos - das superestruturas políticas - rebentam ,no sentido mais forte da palavra . A Base ,até esse momento resguardada dos olhares e da consciência espontãnea , transparece e aparece nos fenómenos políticos que, eles sim revelam o fundo da formação económico-social, as relações de produção e as exigências das forças produtivas , as forças sociais , as relações de classe e as instituições (também superestruturas) que as exprimem e mantêm .
Raramente o político é secundarizado ,contendo o essencial social , o devir e as possibilidades.
Discutir à saciedade as noções e os pressupostod económicos dos clássicos com uma visão anatómica de dissecação ,parece-me um pouco de "lana caprina "...
económicaTiroliroli e pró Tiroliroló (descubram o que é pra
>quem).
>
>Olha! Que bela oportunidade, apanhar o par de jarras
>do Fidalgo Tiroliroli e do Statter Tiroliroló juntos,
>à esquina, a tocar à concertina a moda do marxismo,
>com desafinanços tais que o transformam numa
>caricatura, numa cacofonia!
>
>Tiroliroli e Tiroliroló, nomes tirados duma cantiga
>infantil: “Lá em cima está o Tiroliroli, cá em baixo
>está o Tiroliroló. Juntaram-se os dois à esquina, a
>tocar a concertina, a dançar o sol e dó”. Lembram-se?
>
>Bem! Como quem poderia, com à-vontade, desmontar
>tintim por tintim todas as boboseiras que vocês
>vomitam, e dar-vos um bailarico, já perdeu a pachorra
>(e com toda a razão), vamos lá ver se estou à altura –
>eu, que sou um bocado pró baixo – de tomar conta deste
>“balho” e dar-vos o troco que merecem. Vai ter de ser
>ao meu estilo, que este mandador não tem engenho nem
>paleio pra mais. Portanto, quando vier à tona um pouco
>mais de vernáculo ou de ironia, não se acanhem:
>sintam-se ofendidos à vontade! Vocês, pobres coitados,
>não merecem menos!
>
>1.”a máquina produz valor”. Pelo que me foi dado ler,
>tu é que trouxeste práqui o infeliz exemplo do
>prodigioso endoscópio não fazer, sozinho, endoscopias.
>Pelos vistos, não te chegou o troco, lembrando-te o
>prodígio maior que seria o operador de endoscópios
>fazer, sozinho, endoscopias! Ainda não te entrou na
>cabecinha que sem malho não se pode malhar o aço?
>Mesmo neste tempo em que o trabalho humano vivo é
>NECESSÁRIO para a produção, ainda não alcançaste que
>ele não é SUFICIENTE para criar a riqueza (os objectos
>úteis)? Tens assim o olhar tão vesgo e o pensar tão
>baralhado que não te permitam discernir que é o
>trabalho humano vivo da força de trabalho em
>INTERACÇÃO com o trabalho humano passado materializado
>nos meios de trabalho que transforma a natureza ou o
>trabalho humano passado materializado nos objectos de
>trabalho, dando-lhes novas formas, qualidades e
>utilidades? E, se acaso és médico (já que práqui
>trouxeste a do endoscópio), já experimentaste fazer
>uma cirurgia à unha? Vê lá, enh!, não tentes!
>Esfalfas-te em vão e ainda podes acabar por matar o
>pobre coitado e por seres corrido por doido varrido!
>
>2. “de qualquer maneira, aquelas máquinas todas e
>mesmo os robots, não são mais do que o resultado do
>trabalho humano acumulado de gerações de trabalhadores
>e cientistas”. Ainda não te imaginaste viajando no
>tempo, regressando ao passado, ao teu estado original
>de ameba? Mas, olha, pensa nisso, porque também tu,
>pavão impante, és produto dos zilhões de
>transformações acumuladas sofridas por esse ser tão
>primitivo ou, quem sabe, pela original forma de vida!
>Estavam falando, abécula, de apenas o TRABALHO VIVO
>produzir valor! Não extrapoles abusivamente, para não
>saíres da órbita!
>
>3.A tua intervenção foi colocada de manhã; presumo que
>estivesses sóbrio, estremunhado, mas não com os copos.
>Mas, que diabo, estou a ver-me em palpos de aranha
>para descobrir nexo nas tuas lucubrações e para
>encontrar uma frase que espelhe o cerne das tuas
>preocupações, tão atabalhoadamente balbuciadas.
>Vejamos, talvez esta resuma o que te fosse na alma:
>“um mercado de mercadorias produzidas por robots teria
>como valor o valor dos robots” (tan-ta-ran-taaan!!!,
>que o resto é inteligível, por desconexo e mal
>escrito). Faço-te ainda o favor de imaginar (não custa
>assim tanto e, ao menos, o quadro fica mais composto e
>coerente) que as tais mercadorias eram diversificadas,
>não se reduziam apenas a robots e incluíam os morfes,
>os abafos e os luxos prós humanos, por exemplo, e que
>eram por eles (robots) produzidas colhendo as
>matérias-primas na natureza ou retirando-as das
>próprias entranhas, tanto faz!
>
>Para compor o quadro, vou supor que os tais humanos
>eram, uns, proprietários de robots e, outros,
>prestadores de serviços a outros humanos (variados,
>mas os mais finos, delicados ou sofisticados, para os
>quais os robots fossem ainda toscos ou enfadonhos); e,
>para simplificar, que estes prestavam esses serviços
>apenas aos donos dos tais robots (porque os
>prestadores de serviços tinham apenas robots pra
>trabalhos domésticos, de terceira categoria, e pró
>resto tinham de se amanhar). Está bem assim o cenário?
>Corresponde ao que estavas a pensar (pensar? cruzes,
>credo!), ou precisa de mais qualquer adereço? Pra
>algum retoque, é só dizeres! Não quero que falte nada
>para compreenderes sem esforço de maior o enredo e o
>desfecho da estória!
>
>Ah! Faltou um pormenor. Numa sociedade tão avançada,
>cada um dos tipos de robots, ainda que de diferentes
>marcas e de designs variados, diferenciava-se pela sua
>utilidade diversa, e era produzido e produzia cada um
>dos tipos das outras mercadorias num tempo tão
>aproximado que as diferenças entre eles eram
>desprezáveis, digamos, grosso modo, tempos idênticos.
>
>Os proprietários dos robots dedicavam-se
>especializadamente a cada um dos tipos de robots ou de
>mercadorias por simples gozo, e necessitavam uns dos
>outros e dos prestadores de serviços, trocando robots
>e outras mercadorias (robots, morfes, abafos e luxos)
>entre si e trocando-as igualmente pelos serviços dos
>prestadores de serviços. Como as produtividades de
>cada um daqueles ramos produtivos eram idênticas, os
>ditos proprietários de robots não mudavam de ramo,
>porque nada ganhavam com isso, a não ser incómodos
>desnecessários, ou faziam-no apenas para desfastio. E,
>porque as crises de sobreprodução tinham sido abolidas
>pela gestão inteligente e em tempo real dos
>robots-gestores, tudo corria sem sobressaltos.
>
>Nesta sociedade de dois grupos humanos, os
>proprietários de robots e os prestadores de serviços,
>havia algumas pequenas diferenças, porque uns não
>faziam népia e era só gozo e luxos, e os outros
>prestavam serviços a estes, mas quanto ao resto era
>tudo boa gente. A trapaça, diziam, caíra em desuso; as
>trocas entre o grupo dos proprietários faziam-se na
>proporção do tempo produtivo, já que a produtividade
>(o rendimento) com que as mercadorias eram produzidas
>era idêntica; além do mais aquele tempo era
>automaticamente calculado e aposto no rótulo. Não
>havia pra que enganar. A não ser… enganar os
>prestadores de serviços! Mas, vamos com calma, que é
>pra ver se consegues compreender a estória, Tiroliroli.
>
>Dantes, em tempos um pouco recuados, quando a
>produtividade fora variada, a coisa era mais
>complicada e perturbadora. Havia que calcular o tempo
>médio com que cada tipo de mercadoria era produzido,
>tomá-lo para padrão da produtividade e calcular o
>índice de produtividade com que cada mercadoria
>concreta era produzida, e a troca fazia-se, em
>princípio, na proporção destes índices. Deste modo, os
>proprietários dos robots mais produtivos, a troco de
>um determinado tempo produtivo das suas mercadorias
>sempre recebiam um pouco mais de tempo produtivo em
>mercadorias dos outros. Mas a coisa era complicada,
>porque cada um escondia o tempo produtivo das suas
>mercadorias (o segredo era a alma do negócio!) e só
>através dos balanços, quando uns e outros conferiam as
>contabilidades e as tornavam públicas, a coisa se
>poderia intuir. O tempo estava lá, escondido, mas como
>ninguém sabia ao certo, governavam-se com uma medida
>mais prática, o dinheiro.
>
>E, depois, ainda havia o caso dos produtores de robots
>que produziam os robots que produziam os seus próprios
>e os robots prós outros, e cuja produtividade ia à
>frente da dos outros. Por isso, andava tudo a
>aperfeiçoar os sistemas produtivos no interior dos
>ramos, ou a mudar de ramo, a ver quem conseguia a
>melhor produtividade. Até que com o passar do tempo as
>diferenças se tornaram tão mínimas e desprezáveis que
>o tempo produtivo pode ser público e as trocas se
>fazem na proporção dele. As trocas entre os
>proprietários de robots realizavam-se, dantes, como
>trocas desiguais; agora, como trocas equitativas.
>
>Vejamos os rendimentos dos dois grupos humanos desta
>sociedade. Proprietários de robots: robots, morfes e
>luxos (ou tempo produtivo distribuído por eles).
>Feitas as contas, os proprietários têm que chegue para
>continuar a produzir, pra consumir em morfes e luxos à
>tripa forra, pra renovar os robots e ainda
>desperdiçar, e pra pagar os serviços dos prestadores
>de serviços. Renovar, desperdiçar e pagar serviços é o
>excedente da sua produção, é o que sobra do processo
>produtivo. E é todo deles, não há que ter dúvidas!
>
>Prestadores de serviços: robots domésticos (admitamos,
>também não preciso ser unhas de fome), morfes e
>fancaria (bem, vá lá, luxo com conta, peso e medida, e
>é um pau!, ou tempo produtivo distribuído por eles).
>Os coitados dos prestadores de serviços, que não são
>produzidos pelos robots nem meteram bedelho na
>produção, e cuja mercadoria que têm pra trocar, a
>força de trabalho, não pertence àquele mundo e não
>pode ser contabilizada em tempo produtivo (comem,
>dormem, gozam e tratam de ir adquirindo umas destrezas
>ou competências adequadas aos serviços que prestam, e
>a sua maquineta lá se vai encarregando de produzir a
>mercadoria que têm pra vender) estão bem lixados! Sim,
>com base em que padrão, em que unidade de medida, se
>vão eles basear para atribuírem valor à sua
>mercadoria, que irá ser utilizada, não nos esqueçamos,
>sob a forma de prestação de serviços? Como estabelecer
>entre proprietários e prestadores de serviços a mesma
>igualdade na troca que ocorre entre os proprietários?
>Bem, estipulam tanto pra isto, tanto práquilo (e
>tanto, porque um homem não é de pau, etc. e tal), e
>não são de modas: venha pra cá o equivalente ao
>excedente!
>
>E porque vai e porque torna, mas vocês não meteram
>aqui bedelho, e ainda que tivessem metido, haviam
>vendido a vossa mercadoria (palavreado dos
>proprietários). E os vossos robots não produzem
>serviços, e isto é nosso (a força de trabalho que
>presta serviços), e nós temos direito ao que sobra,
>porque se não é uma vigarice pegada, e rebéubéu
>pardais ao ninho! Ó cambada de maltrapilhos que não
>têm onde cair mortos, mas que bandalheira é esta, quem
>é que vocês se julgam, também querem transformar-se em
>proprietários? Não queriam mai nada, não? E, depois,
>quem é que nos presta serviços? Ponham-se mas é no
>vosso lugar! E arma-se ali uma pandeireta dos diabos!
>
>Chega a bófia, guarda-costas (e a barriga e a
>propriedade) dos proprietários, arreia uma carga de
>porrada nos desgraçados dos prestadores de serviços
>que não têm onde cair mortos, e vão uma data deles de
>cana, outros são dispensados os seus serviços, outros
>dão de frosques; uns, às tantas, começam a clamar que
>têm mulher e filhos, outros, que já não comem há uns
>dias, outros, ainda, e que a gente ainda morre mas é à
>fome, e se a gente não faz a coisa por menos estamos
>mas é fodidos, e os gajos ainda nos matam, e os gajos
>abrem os portões aos pretos e aos pretos-brancos, que
>são ainda mais desgraçados e fazem os serviços por
>muito menos… E pronto, os desgraçados dos prestadores
>de serviços que não têm onde cair mortos, pra não
>morrerem, lá aceitaram o que os proprietários lhes
>quiseram dar!
>
>Feitas as contas, os proprietários foram magnânimos:
>deram aos desgraçados dos prestadores de serviços que
>não têm onde cair mortos metade do excedente, o que,
>diziam, era o justo valor da força de trabalho.
>Afinal, vistas bem as coisas, dava para os desgraçados
>dos prestadores de serviços não morrerem de fome e
>levarem uma vidinha alegre e despreocupada. Até que os
>proprietários começaram a dispensar prestadores de
>serviços, porque já tinham robots que prestavam
>serviços melhor que os prestadores de serviços, e não
>lhes chupavam metade do excedente… Mas isso é outra
>estória!
>
>Tiroliroli. Espero que tenhas conseguido acompanhar o
>enredo da estória e que tenhas compreendido que até as
>máquinas criam valor, que o salário (aquilo que os
>prestadores de serviços da nossa estória recebiam em
>troca da sua força de trabalho) é apenas uma parte do
>produto, parte compatível com o viver à tripa forra
>dos proprietários, com o que é necessário para
>assegurar a continuidade da produção, com o que é
>necessário para renovar as máquinas e, ainda, para
>desperdiçar. Que o tempo, como viste, serve apenas
>para que os proprietários repartam entre si, e que
>para a força de trabalho não há padrão, mas apenas e
>só o bastante para se manter. Viste agora, porquê o
>padrão para melhor determinar o valor da força de
>trabalho é o cassetete da polícia, com o qual ficaste
>tão indignado?
>
>Imagina, agora, que recuávamos no tempo, que
>regressávamos até este nosso tempo; que os prestadores
>de serviços estendiam a sua prestação a lidar com
>máquinas, ou com papel e lápis, ou com computadores,
>ou com o raio que parta; mudou apenas o tipo do
>serviço. Terá mudado mais alguma coisa? Como vês, não
>é necessário andar a bradar que os prestadores de
>serviços são donos disto e daquilo e que são roubados
>por aquilo que produziram para além do que receberam,
>eles, coitados, que apenas são donos da sua força de
>trabalho e não têm onde cair mortos. Essa foi a
>estória que o Marx te vendeu (ou que tu compraste do
>Marx, que é mais correcto), porque a realidade é
>complicada e nós não conseguimos ver a essência das
>coisas, apenas a sua aparência. O Marx também não viu,
>e ele era dotado, arguto, perspicaz e persistente,
>quanto mais tu, não é?
>
>Imagina agora a outra estória, de que os prestadores
>de serviços se vão transformar nos proprietários das
>máquinas…
>
>Agora, vê tu bem se até os animais domésticos não
>produzem valor! Mas perde a ilusão, pá, o que regula
>as relações entre os homens é a política; a economia é
>coisa de contabilistas. Juntando as contas ao
>cassetete, temos a economia política, que é afinal, a
>porca da realidade!
>
>Bem, gostava de continuar esta estória, mas, porra,
>demorei tempo de mais a escrever isto! Veremos se dá
>pra continuar.
>
>António Fagundes.
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