Olha! Que bela oportunidade, apanhar o par de jarras do Fidalgo Tiroliroli e do Statter Tiroliroló juntos, à esquina, a tocar à concertina a moda do marxismo, com desafinanços tais que o transformam numa caricatura, numa cacofonia!
Tiroliroli e Tiroliroló, nomes tirados duma cantiga infantil: “Lá em cima está o Tiroliroli, cá em baixo está o Tiroliroló. Juntaram-se os dois à esquina, a tocar a concertina, a dançar o sol e dó”. Lembram-se?
Bem! Como quem poderia, com à-vontade, desmontar tintim por tintim todas as boboseiras que vocês vomitam, e dar-vos um bailarico, já perdeu a pachorra (e com toda a razão), vamos lá ver se estou à altura – eu, que sou um bocado pró baixo – de tomar conta deste “balho” e dar-vos o troco que merecem. Vai ter de ser ao meu estilo, que este mandador não tem engenho nem paleio pra mais. Portanto, quando vier à tona um pouco mais de vernáculo ou de ironia, não se acanhem: sintam-se ofendidos à vontade! Vocês, pobres coitados, não merecem menos!
1.”a máquina produz valor”. Pelo que me foi dado ler, tu é que trouxeste práqui o infeliz exemplo do prodigioso endoscópio não fazer, sozinho, endoscopias. Pelos vistos, não te chegou o troco, lembrando-te o prodígio maior que seria o operador de endoscópios fazer, sozinho, endoscopias! Ainda não te entrou na cabecinha que sem malho não se pode malhar o aço? Mesmo neste tempo em que o trabalho humano vivo é NECESSÁRIO para a produção, ainda não alcançaste que ele não é SUFICIENTE para criar a riqueza (os objectos úteis)? Tens assim o olhar tão vesgo e o pensar tão baralhado que não te permitam discernir que é o trabalho humano vivo da força de trabalho em INTERACÇÃO com o trabalho humano passado materializado nos meios de trabalho que transforma a natureza ou o trabalho humano passado materializado nos objectos de trabalho, dando-lhes novas formas, qualidades e utilidades? E, se acaso és médico (já que práqui trouxeste a do endoscópio), já experimentaste fazer uma cirurgia à unha? Vê lá, enh!, não tentes! Esfalfas-te em vão e ainda podes acabar por matar o pobre coitado e por seres corrido por doido varrido!
2. “de qualquer maneira, aquelas máquinas todas e mesmo os robots, não são mais do que o resultado do trabalho humano acumulado de gerações de trabalhadores e cientistas”. Ainda não te imaginaste viajando no tempo, regressando ao passado, ao teu estado original de ameba? Mas, olha, pensa nisso, porque também tu, pavão impante, és produto dos zilhões de transformações acumuladas sofridas por esse ser tão primitivo ou, quem sabe, pela original forma de vida! Estavam falando, abécula, de apenas o TRABALHO VIVO produzir valor! Não extrapoles abusivamente, para não saíres da órbita!
3.A tua intervenção foi colocada de manhã; presumo que estivesses sóbrio, estremunhado, mas não com os copos. Mas, que diabo, estou a ver-me em palpos de aranha para descobrir nexo nas tuas lucubrações e para encontrar uma frase que espelhe o cerne das tuas preocupações, tão atabalhoadamente balbuciadas. Vejamos, talvez esta resuma o que te fosse na alma: “um mercado de mercadorias produzidas por robots teria como valor o valor dos robots” (tan-ta-ran-taaan!!!, que o resto é inteligível, por desconexo e mal escrito). Faço-te ainda o favor de imaginar (não custa assim tanto e, ao menos, o quadro fica mais composto e coerente) que as tais mercadorias eram diversificadas, não se reduziam apenas a robots e incluíam os morfes, os abafos e os luxos prós humanos, por exemplo, e que eram por eles (robots) produzidas colhendo as matérias-primas na natureza ou retirando-as das próprias entranhas, tanto faz!
Para compor o quadro, vou supor que os tais humanos eram, uns, proprietários de robots e, outros, prestadores de serviços a outros humanos (variados, mas os mais finos, delicados ou sofisticados, para os quais os robots fossem ainda toscos ou enfadonhos); e, para simplificar, que estes prestavam esses serviços apenas aos donos dos tais robots (porque os prestadores de serviços tinham apenas robots pra trabalhos domésticos, de terceira categoria, e pró resto tinham de se amanhar). Está bem assim o cenário? Corresponde ao que estavas a pensar (pensar? cruzes, credo!), ou precisa de mais qualquer adereço? Pra algum retoque, é só dizeres! Não quero que falte nada para compreenderes sem esforço de maior o enredo e o desfecho da estória!
Ah! Faltou um pormenor. Numa sociedade tão avançada, cada um dos tipos de robots, ainda que de diferentes marcas e de designs variados, diferenciava-se pela sua utilidade diversa, e era produzido e produzia cada um dos tipos das outras mercadorias num tempo tão aproximado que as diferenças entre eles eram desprezáveis, digamos, grosso modo, tempos idênticos.
Os proprietários dos robots dedicavam-se especializadamente a cada um dos tipos de robots ou de mercadorias por simples gozo, e necessitavam uns dos outros e dos prestadores de serviços, trocando robots e outras mercadorias (robots, morfes, abafos e luxos) entre si e trocando-as igualmente pelos serviços dos prestadores de serviços. Como as produtividades de cada um daqueles ramos produtivos eram idênticas, os ditos proprietários de robots não mudavam de ramo, porque nada ganhavam com isso, a não ser incómodos desnecessários, ou faziam-no apenas para desfastio. E, porque as crises de sobreprodução tinham sido abolidas pela gestão inteligente e em tempo real dos robots-gestores, tudo corria sem sobressaltos.
Nesta sociedade de dois grupos humanos, os proprietários de robots e os prestadores de serviços, havia algumas pequenas diferenças, porque uns não faziam népia e era só gozo e luxos, e os outros prestavam serviços a estes, mas quanto ao resto era tudo boa gente. A trapaça, diziam, caíra em desuso; as trocas entre o grupo dos proprietários faziam-se na proporção do tempo produtivo, já que a produtividade (o rendimento) com que as mercadorias eram produzidas era idêntica; além do mais aquele tempo era automaticamente calculado e aposto no rótulo. Não havia pra que enganar. A não ser… enganar os prestadores de serviços! Mas, vamos com calma, que é pra ver se consegues compreender a estória, Tiroliroli.
Dantes, em tempos um pouco recuados, quando a produtividade fora variada, a coisa era mais complicada e perturbadora. Havia que calcular o tempo médio com que cada tipo de mercadoria era produzido, tomá-lo para padrão da produtividade e calcular o índice de produtividade com que cada mercadoria concreta era produzida, e a troca fazia-se, em princípio, na proporção destes índices. Deste modo, os proprietários dos robots mais produtivos, a troco de um determinado tempo produtivo das suas mercadorias sempre recebiam um pouco mais de tempo produtivo em mercadorias dos outros. Mas a coisa era complicada, porque cada um escondia o tempo produtivo das suas mercadorias (o segredo era a alma do negócio!) e só através dos balanços, quando uns e outros conferiam as contabilidades e as tornavam públicas, a coisa se poderia intuir. O tempo estava lá, escondido, mas como ninguém sabia ao certo, governavam-se com uma medida mais prática, o dinheiro.
E, depois, ainda havia o caso dos produtores de robots que produziam os robots que produziam os seus próprios e os robots prós outros, e cuja produtividade ia à frente da dos outros. Por isso, andava tudo a aperfeiçoar os sistemas produtivos no interior dos ramos, ou a mudar de ramo, a ver quem conseguia a melhor produtividade. Até que com o passar do tempo as diferenças se tornaram tão mínimas e desprezáveis que o tempo produtivo pode ser público e as trocas se fazem na proporção dele. As trocas entre os proprietários de robots realizavam-se, dantes, como trocas desiguais; agora, como trocas equitativas.
Vejamos os rendimentos dos dois grupos humanos desta sociedade. Proprietários de robots: robots, morfes e luxos (ou tempo produtivo distribuído por eles). Feitas as contas, os proprietários têm que chegue para continuar a produzir, pra consumir em morfes e luxos à tripa forra, pra renovar os robots e ainda desperdiçar, e pra pagar os serviços dos prestadores de serviços. Renovar, desperdiçar e pagar serviços é o excedente da sua produção, é o que sobra do processo produtivo. E é todo deles, não há que ter dúvidas!
Prestadores de serviços: robots domésticos (admitamos, também não preciso ser unhas de fome), morfes e fancaria (bem, vá lá, luxo com conta, peso e medida, e é um pau!, ou tempo produtivo distribuído por eles). Os coitados dos prestadores de serviços, que não são produzidos pelos robots nem meteram bedelho na produção, e cuja mercadoria que têm pra trocar, a força de trabalho, não pertence àquele mundo e não pode ser contabilizada em tempo produtivo (comem, dormem, gozam e tratam de ir adquirindo umas destrezas ou competências adequadas aos serviços que prestam, e a sua maquineta lá se vai encarregando de produzir a mercadoria que têm pra vender) estão bem lixados! Sim, com base em que padrão, em que unidade de medida, se vão eles basear para atribuírem valor à sua mercadoria, que irá ser utilizada, não nos esqueçamos, sob a forma de prestação de serviços? Como estabelecer entre proprietários e prestadores de serviços a mesma igualdade na troca que ocorre entre os proprietários? Bem, estipulam tanto pra isto, tanto práquilo (e tanto, porque um homem não é de pau, etc. e tal), e não são de modas: venha pra cá o equivalente ao excedente!
E porque vai e porque torna, mas vocês não meteram aqui bedelho, e ainda que tivessem metido, haviam vendido a vossa mercadoria (palavreado dos proprietários). E os vossos robots não produzem serviços, e isto é nosso (a força de trabalho que presta serviços), e nós temos direito ao que sobra, porque se não é uma vigarice pegada, e rebéubéu pardais ao ninho! Ó cambada de maltrapilhos que não têm onde cair mortos, mas que bandalheira é esta, quem é que vocês se julgam, também querem transformar-se em proprietários? Não queriam mai nada, não? E, depois, quem é que nos presta serviços? Ponham-se mas é no vosso lugar! E arma-se ali uma pandeireta dos diabos!
Chega a bófia, guarda-costas (e a barriga e a propriedade) dos proprietários, arreia uma carga de porrada nos desgraçados dos prestadores de serviços que não têm onde cair mortos, e vão uma data deles de cana, outros são dispensados os seus serviços, outros dão de frosques; uns, às tantas, começam a clamar que têm mulher e filhos, outros, que já não comem há uns dias, outros, ainda, e que a gente ainda morre mas é à fome, e se a gente não faz a coisa por menos estamos mas é fodidos, e os gajos ainda nos matam, e os gajos abrem os portões aos pretos e aos pretos-brancos, que são ainda mais desgraçados e fazem os serviços por muito menos… E pronto, os desgraçados dos prestadores de serviços que não têm onde cair mortos, pra não morrerem, lá aceitaram o que os proprietários lhes quiseram dar!
Feitas as contas, os proprietários foram magnânimos: deram aos desgraçados dos prestadores de serviços que não têm onde cair mortos metade do excedente, o que, diziam, era o justo valor da força de trabalho. Afinal, vistas bem as coisas, dava para os desgraçados dos prestadores de serviços não morrerem de fome e levarem uma vidinha alegre e despreocupada. Até que os proprietários começaram a dispensar prestadores de serviços, porque já tinham robots que prestavam serviços melhor que os prestadores de serviços, e não lhes chupavam metade do excedente… Mas isso é outra estória!
Tiroliroli. Espero que tenhas conseguido acompanhar o enredo da estória e que tenhas compreendido que até as máquinas criam valor, que o salário (aquilo que os prestadores de serviços da nossa estória recebiam em troca da sua força de trabalho) é apenas uma parte do produto, parte compatível com o viver à tripa forra dos proprietários, com o que é necessário para assegurar a continuidade da produção, com o que é necessário para renovar as máquinas e, ainda, para desperdiçar. Que o tempo, como viste, serve apenas para que os proprietários repartam entre si, e que para a força de trabalho não há padrão, mas apenas e só o bastante para se manter. Viste agora, porquê o padrão para melhor determinar o valor da força de trabalho é o cassetete da polícia, com o qual ficaste tão indignado?
Imagina, agora, que recuávamos no tempo, que regressávamos até este nosso tempo; que os prestadores de serviços estendiam a sua prestação a lidar com máquinas, ou com papel e lápis, ou com computadores, ou com o raio que parta; mudou apenas o tipo do serviço. Terá mudado mais alguma coisa? Como vês, não é necessário andar a bradar que os prestadores de serviços são donos disto e daquilo e que são roubados por aquilo que produziram para além do que receberam, eles, coitados, que apenas são donos da sua força de trabalho e não têm onde cair mortos. Essa foi a estória que o Marx te vendeu (ou que tu compraste do Marx, que é mais correcto), porque a realidade é complicada e nós não conseguimos ver a essência das coisas, apenas a sua aparência. O Marx também não viu, e ele era dotado, arguto, perspicaz e persistente, quanto mais tu, não é?
Imagina agora a outra estória, de que os prestadores de serviços se vão transformar nos proprietários das máquinas…
Agora, vê tu bem se até os animais domésticos não produzem valor! Mas perde a ilusão, pá, o que regula as relações entre os homens é a política; a economia é coisa de contabilistas. Juntando as contas ao cassetete, temos a economia política, que é afinal, a porca da realidade!
Bem, gostava de continuar esta estória, mas, porra, demorei tempo de mais a escrever isto! Veremos se dá pra continuar.