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Subject: Re: Um bom partido trabalhista I


Author:
António Fagundes
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Date Posted: 19/08/04 14:22
In reply to: Jorge Nascimento Fernandes 's message, "Um bom partido trabalhista I" on 19/08/04 11:36

Entendo o fórum como espaço para troca de ideias de modo informal. Não sou filiado em partido algum, embora não seja virgem neste campo, mas tenho interesse em que a representação partidária dos assalariados se efective com um mínimo de coerência, coisa que me parece não ocorrer.

Quando aqui intervenho não considero os interlocutores como adversários nem me interessam as suas filiações partidárias; se participo é para debater ideias (ainda que informal e superficialmente, que o meio não permite muito mais), não é para tirar nabos da púcara, nem para confrontar ninguém com o que quer seja (a não ser para dar continuidade ao debate).

Tão pouco me interessa atacar mortos (Marx, Lenine, etc.) ou vivos (Cunhal, Fidalgo, etc.): interessa-me somente as suas ideias, para aceitá-las ou criticá-las, o que não me impede, na crítica, de usar os qualificativos que me pareçam adequados (sem considerar que seja detentor de qualquer aferidor da validade).

Posto isto, considero, ao contrário do que diz o Fernandes, que o mal destes (ou de quaisquer outros fóruns) é as pessoas estarem cristalizadas em ideias feitas, fecharem os olhos à realidade, e repetirem as mesmas ladainhas sem se darem ao trabalho de questionarem as ideias dos outros e, muito menos, as suas próprias ideias. Este mal é particularmente notório entre os marxistas, marxistas-leninistas e marxistas-leninistas-maoistas, porque a adesão a estas ideologias foi feita, e é mantida, na base da fé, fora portanto de qualquer exercício crítico (e pode imaginar, Fernandes, que sei do que falo, porque eu próprio aderi a elas há mais de trinta e cinco anos e fui crente durante alguns anos), e a sua militância partidária se baseia na arrogância de serem os detentores da verdade e de se considerarem os eleitos para mudarem radicalmente o Mundo, só porque a profecia marxista assim o proclamou.

Não tenho também qualquer interesse especial na RC, ou qualquer esperança por aí além de que ela venha a transformar-se num movimento político próximo das ideias que defendo – que em termos simples, e para seu sossego, lhe digo aproximarem-se duma forte ligação ao movimento sindical, sendo como que a sua expressão política, ainda que não se deva confundir com o que em tempos foi designado por anarco-sindicalismo, e para defesa dos interesses económicos e políticos dos assalariados e não para o seu uso como exército em qualquer revolução política redentora.

O interesse pela RC advém de ela se ter originado por rotura com o PCP e ter tomada forma organizada de movimento político autónomo, dando-me a entender não pretender tomar o PCP como seu alvo, quer para atacá-lo, quer para reformá-lo, nem a integração noutro partido. Eventualmente, equivoquei-me, mas ainda hoje não percebo muito bem o que ela seja, daí o teor das minhas intervenções no fórum tentando o debate esclarecedor. Não considero, por isto, que ter apontado a “deriva obreirista” como aspecto principal da crítica da RC ao PCP deva ser considerado abusivo. Pode, eventualmente, ser meu equívoco, por deficiente informação, compreensão ou acompanhamento, mas isso só reforça a necessidade de clarificação. Pode crer que se a RC fosse apenas uma associação ou clube privado de discussão e reflexão política e ideológica, e não um movimento político público, pouco me interessaria.

E não tenho uma esperança especial de que a RC evolua para um movimento do tipo que defendo, por uma razão simples: a rotura com os partidos comunistas ou envolve um corte epistemológico com o marxismo mantendo a defesa dos interesses dos assalariados ou constitui mera deriva para o campo inter-classista (para não falar das roturas individuais que conduziram os seus protagonistas para o campo do capital). As dissidências políticas sem este corte radical, sem a compreensão dos equívocos teóricos que estão na origem da profecia redentora marxista, não conduzem a nada de bom e acabam no isolamento político, louvaminhando embora a utopia idealista, no arrependimento e na auto-crítica humilhante (com reintegração ou não) ou na simples mudança de campo. E a rotura que a RC efectivou até agora, em meu entender, foi uma mera rotura com a táctica e a estrutura organizativa do PCP (não discuto, porque desconheço, até que ponto a deterioração do clima interno possa ter forçado essa iniciativa, mas não me custa a crer que o fanatismo que caracteriza a militância comunista tenha gerado situações pessoais insustentáveis).

O problema das ideologias comunistas não são questões de mais ou menos dogma, de mais ou menos esquerdismo e fanatismo; as dissidências podem resumi-lo a isso; as roturas, não. Ele prende-se com um equívoco idealista de base do marxismo – que o proletariado seria a última das classes exploradas e que lhe estaria predestinado transformar o Mundo – da chamada revolução proletária, assim como de outros no campo da crítica da economia política. Sem a compreensão desses equívocos, através do uso da razão e do mais acutilante espírito crítico, é muito difícil sair do campo da crença pela fé. E, como todos sabemos, a fé não se discute: tem-se ou não.

Os cortes são dolorosos, difíceis de empreender, porque não dependem da vontade, e requerem amadurecimento de dúvidas, de olhares de outras perspectivas para a realidade, de algum distanciamento dos instrumentos de deformação habituais e, sobretudo, de um contexto de discussão propício, que permita ir encontrando uma resposta aqui, outra acolá, até que consigamos ser críticos de nós próprios.

António Fagundes.


>Um bom partido trabalhista I
>
>“Uma rotura com o comunismo (marxista ou não) e a
>tentativa de formação de uma organização
>verdadeiramente trabalhista, na linha de um reformismo
>classista, à moda da velha social-democracia escorada
>no apoio sindical, campo que o PS nunca representou
>(por sempre se ter afirmado e praticado como partido
>inter-classista) e que o BE (apesar do seu eclectismo
>ideológico) e o PCP (pelo apego à ortodoxia comunista
>marxista-leninista) não podem fielmente representar
>mas se esforçam na prática por ir ocupando?”
>
>Um dos males deste tipo de fóruns é de que nunca
>conhecemos os adversários, não sabemos as suas
>filiações ou inclinações políticas, nem sabemos muitas
>vezes se estão a sério ou se querem pura e
>simplesmente tirar nabos da púcara. Se algumas
>afirmações que aqui se fazem servem para
>posteriormente nos confrontarem com elas ou se para
>dizerem que tal e tal Partido disse no passado isto ou
>aquilo. Mas isto faz parte da luta política e portanto
>temos que estar preparados para tudo.
>Vem isto a propósito do debate que aqui estou a travar
>com o António Fagundes, pessoa que eu não conheço e
>que nestas últimas afirmações tem trazido alguma
>contribuição extremamente interessante, apesar de
>muito crítica em relação à RC.
>Iniciei esta minha intervenção com a transcrição de
>uma parte de um dos seus textos, em que pergunta se a
>RC quer ser uma organização verdadeiramente
>trabalhista. Com a sua resposta à minha intervenção
>fiquei com a ideia clara que era isso que queria que a
>RC fosse. É uma opinião e quanto a mim bastante mais
>respeitável do que o bota-abaixo que durante certo
>tempo enxameou este fórum., no entanto, merece
>discussão que ou ainda neste “post” ou num seguinte,
>continuarei.
>Mas passemos aos seus pontos concretos.
>Deixemos a questões dos sites, porque é de somenos
>importância e passemos à substância.
>Quanto às diferenças entre ao RC e o PCP, Fagundes
>parte do princípio que a divergência fundamental é
>relativamente à crítica obreirista que aquela faria a
>este. Partindo deste princípio, elabora uma série de
>considerações sobre a RC. Sem ser porta-voz da RC, e
>muito menos exegeta dos seus textos, e reportando-me
>exclusivamente a afirmações por mim aqui produzidas,
>diria que nunca referi que o PCP tinha entrado numa
>deriva obreirista, mas sim sectária e esquerdizante, o
>que é bastante diferente.
>Por outro lado, num documento que está publicado no
>“dotecome”, em “Textos e Documentos”, desde Junho de
>2002, e da minha autoria, relativo a “Algumas
>reflexões sobre a necessidade de renovação do PCP”,
>que depois transformei, a quando do 1º Encontro da RC,
>em “necessidade de renovação do movimento comunista”,
>formulo aquilo que me separava da ideologia oficial do
>PCP. Sei que nada disto são documentos oficiais da RC,
>mas parece-me abusivo da sua parte dizer que aquilo
>que separa a RC do PCP é exclusivamente a deriva
>obreirista deste que dificultaria a partilha do poder
>com o PS.
>Tem depois esta afirmação de que para “um partido
>leninista, a partilha do poder do aparelho do Estado
>do capital não é um objectivo estratégico mas
>meramente táctico, que não pode sacrificar a
>estratégia”. Penso que aqui mais uma vez recorre ao
>estereotipo, porque hoje um partido pode-se reclamar
>de uma certa influência leninista e não ter aquela
>visão tão instrumental das alianças com os outros
>partidos de esquerda. Lamento, mas muitas das suas
>afirmações e até posições se baseiam-se em “a priori”,
>que lamentavelmente o PCP confirma, mas que estão hoje
>muito longe da reflexão séria a nível internacional
>dos comunistas.
>Quanto à discussão sobre as intervenções do Paulo
>Fidalgo parece-me que é de ficarmos por aqui, porque
>estamos a falar de terceiros que aqui intervém e que
>podem ficar melindrados, e com razão, relativamente às
>apreciações que fazemos dos seus textos.
>No entanto, num ambiente de pobreza generalizada, eu
>diria até que avessa à discussão teórica sobre o
>marxismo, não podemos esperar que floresçam, por obra
>e graça do espírito santo, grandes reflexões teóricas
>para os lados da RC.
>Quanto ao Álvaro Cunhal fica para outra altura, mas o
>seu Rumo à Vitória e a teoria do levantamento
>democrático e nacional (continuo a não confirmar a
>terminologia inicialmente utilizada) foi para época
>uma reflexão importante, que teve assinaláveis
>repercussões, apesar da direita e da social-democracia
>o negar, no 25 de Abril e no programa inicial do
>movimento das Forças Armadas. Mas isto fica para outra
>altura.
>Depois entramos na parte mais interessante do seu
>texto, em que finalmente vem ao de cimo as suas opções
>políticas, o que é bom para clarificar as ideias. Mas,
>tal como já tinha admitido no princípio, vou deixar
>esta discussão para melhor oportunidade.

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Replies:
Subject Author Date
Re: Um bom partido trabalhista IJorge Nascimento Fernandes19/08/04 16:26


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