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Subject: Re: capitalismo como recurso?


Author:
António Fagundes
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Date Posted: 22/08/04 10:37
In reply to: paulo fidalgo 's message, "capitalismo como recurso?" on 21/08/04 23:59

Fidalgo.

De facto, faz muito bem não me confundir com Stalin; se o fizesse cometeria uma grande injustiça para com ele.

Apesar da eventual coincidência de argumentos - o que me parece extraordinário, nomeadamente, porque eu abordei o assunto de forma ligeiríssima, em duas penadas, sem a caterva de dados e sem as dificuldades nem o drama que devem ter acompanhado os decisores da altura - e de os argumentos então usados lhe merecerem o epíteto de "vulgares" (apetecia-me perguntar-lhe porquê; será porque para aquela situação concreta os mestres não tinham dado a receita?), o certo é que o fim da NEP e o início da colectivização é que possibilitou a existência da URSS que os comunistas tanto louvaram.

Esta tentativa de encontrar bodes expiatórios para a falência do comunismo - sejam líderes ou decisões tais e tais - não deixa de ser engraçado. Faz-me lembrar outras músicas para a mesma dança, quando para as origens do chamado revisionismo soviético dos anos sessenta os esquerdistas comunistas começaram por apontar, primeiro, um desvio kruchovista, depois, o centrismo stalinista, chegando, por fim, à descoberta da grande causa: que a revolução bolchevique não foi sequer uma revolução socialista.

O Fagundes não diz apenas que a NEP foi um recurso; diz também que foi um recuo (vamos lá ler todas as palavras)! Foi permitir o restabelecimento das regras de mercado onde elas haviam sido abolidas ou fortemente distorcidas, para que o campesinato voltasse a aceitar alienar a sua produção. Não foi apenas um interregno para tentar reganhar o apoio camponês e para relançar a aliança operária-camponesa que havia permitido o golpe de estado vitorioso e o enfrentamento da guerra civil e do intervencionismo estrangeiro, e que entretanto, com o comunismo de guerra, se degradara ao ponto de fazer perigar a manutenção dos comunistas no poder. E o fim da NEP deve ter sido um dilema do mesmo tipo, se bem que já noutras condições; mas do que se tratava era entregar o ouro ao bandido ou enfrentá-lo, levando adiante o programa político da revolução socialista!

O que é que incomóda com o fim da NEP? As atrocidades cometidas durante a colectivização forçada? As purgas no partido comunista? Mas, então, as cooperativas, os kolkhozes e as empresas industriais estatizadas, a planificação da economia não eram os remédios para a decadente economia capitalista? E o monolitismo no partido não era o meio para o seu fortalecimento? Quer-se reescrever a História, ou quê? É pena, mas este filme não anda para trás!

O uso do capitalismo num processo de transição. Mas então, agora, o capitalismo é algo de descartável, de usar e jogar fora? Não estaremos a confundir, levianamente, modos de produzir e as suas relações sociais com um qualquer objecto que se manipula a nosso belo prazer? E, melhor, se o capitalismo, por tão iníquo, é para derrubar e para substituir pelo socialismo, porquê que ele, e não o socialismo, terá ainda um papel a cumprir nesse tal processo de transição? Será a reedição da revolução democrático-popular dimitroviana, a tal coisa que não era carne nem era peixe?

Se a tão procurada renovação do comunismo está para ser feita com o recurso a distorções grosseiras da História e a reinterpretações tão sinuosas da ideologia, não promete nada de bom. Que haja, ao menos, um pouco de seriedade e de coerência!

Os críticos da revolução (como eu) e uma parte dos seus apoiantes (os comunistas ortodoxos, presumo) coincidem na crítica do "uso de mecanismos capitalistas"? Só pode ser mera coincidência, derivada do uso de "argumentação vulgar" na "análise vugar" da História. Se assim for, ao menos os ortodoxos fazem juz ao qualificativo que lhes atribuem; oxalá os ditos renovadores tivessem a mesma seriedade de análise.

Por fim, ir buscar a NEP para encontrar nela qualquer analogia com o processo de transição na China, ou para a sua análise, é um processo típico dos comunistas de trazer por casa, que incapazes de pensar pelas suas próprias cabecinhas procuram no dixit dos mestres a argumentação que lhes falta para a análise da realidade contemporânea.

António Fagundes.

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Replies:
Subject Author Date
reescrever a históriapaulo fidalgo22/08/04 11:39
comunistas de trazer por casapaulo fidalgo22/08/04 12:15


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