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Subject: Re: "revolução a sério"


Author:
António Fagundes
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Date Posted: 21/08/04 22:45
In reply to: paulo fidalgo 's message, ""revolução a sério"" on 21/08/04 20:38

Sim, Sr. Fidalgo, não sou comunista! Não é impeditivo de participar na discussão? Ainda bem!

Por minha parte, não tenho qualquer problema em discutir com comunistas, ou seja lá com quem for, e não me interessa se são ou deixam de ser, desde que os temas sejam interessantes e se observe um mínimo de seriedade na argumentação.

Uma revolução social (friso, social) é tudo isso que diz, sim senhor, e é até um processo muito, muito longo. Acontece que os comunistas, geralmente, confundem a revolução social com revolução política e, muitas vezes, ainda confundem esta com o golpe de estado insurrecional. Eu não tenho essa visão tão redutora.

E como não poderão eles confundir se uma classe desprovida da propriedade dos meios de produção só pode chegar a ela e instaurar outro tipo de relações sociais pela conquista do poder político e pelas expropriações? A não ser que estejemos sonhando que os comunistas conquistem o poder e não expropriem, ou, até, que os capitalistas não fujam e passem a coexistir pacificamente com o novo poder, sabendo o fim para que caminham!

Mas essa da coexistência do socialismo com o capitalismo só pode ser uma novidade, nomeadamente, porque a grande consigna da revolução comunista era a expropriação dos exploradores. Estará esquecido ou trata-se de um novo revisionismo, ou da tal renovação do marxismo-leninismo, de que tanto se fala?

E essa outra de o capitalismo ter interesse para resolver problemas especiais de desenvolvimento, então, é de bradar aos céus! Afinal é o capitalismo que deve resolver os problemas de desenvolvimento ou é o socialismo e o comunismo que têm a capacidade de o fazer e de proporcionar a abundância, pela libertação das forças produtivas das peias e dos entraves que constituem as relações de produção capitalistas? Estamos a raciocinar ao contrário ou as lentes estão embaciadas?

Quanto à NEP. Deve saber, presumo, que ela constituiu um recurso, uma necessidade para aumentar a produção e melhorar o abastecimento urbano, e um recuo, após as vicissitudes a que o comunismo de guerra obrigara durante o período da guerra civil, e não uma concepção ideológica estabelecida. Com as requisições arbitrárias de cereais e de gado, o campesinato, que havia recebido terras e fora até então um aliado do partido bolchevique e um apoiante da revolução, lutando ao lado dos comunistas contra a restauração da velha ordem, passou a oferecer cada vez maior resistência à política de preços e às requisições, agravando os problemas de abastecimento.

A NEP foi a restauração dos mecanismos de mercado, que permitiu melhorar os preços e a relação de troca entre produtos agrícolas e industriais, assim como permitiu a especulação e o fortalecimento dos interesses próprios do campesinato e da pequena burguesia urbana, que cada vez mais se rebelavam contra o controlo estatal e os entraves de toda a ordem ao desenvolvimento das relações capitalistas.

Naquela situação, a continuidade da NEP poderia levar sabe-se lá onde. As opiniões no partido dividiram-se, mas foi o partido bolchevique, e não apenas Stáline (ou não apenas pelo controlo que este exerceria sobre os órgão do partido), que decretou a extinção da NEP e a instauração da colectivização.

E tal como a colectivização, também os crimes cometidos sobre o campesinato que resistia às requisições (ao roubo, porque por fim tratava-se apenas de saque), assim como os cometidos com o fuzilamento de dissidentes até então tidos por camaradas e por revolucionários dedicados e talentosos, não podem ser atribuídos apenas ao carácter malvado, torpe e insano de Stáline.

António Fagundes.

>pela resposta do Fagundes fico com a impressão que não
>é comunista mas isso não impede e até dá interesse a
>esta discussão
>
>quanto à resposta em si, sobretudo no que à NEP diz
>respeito, parece depreender-se que uma "revolução a
>sério" é incompatível com o uso de mecanismos
>capitalistas e com o uso do mercado. Julgo que é este
>o sentido geral, mais abstracto da resposta.
>
>Se assim é não posso discordar mais. Uma revolução é
>um processo e uma transição na esfera política mas
>também no modo de produção em que a relação de
>importância entre as várias formações existentes se
>alteram. Nesse sentido, susbsistirá capitalismo e a
>questão mais importante da NEP, da China ou do período
>especial de Cuba é a de que o capitalismo pode mesmo
>ter interesse para resolver problemas especiais de
>desenvolvimento..

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Replies:
Subject Author Date
capitalismo como recurso?paulo fidalgo21/08/04 23:59


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