| Subject: Re: rendição ao grupo dos 9 |
Author:
Ângelo Novo
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 12/12/04 11:50
In reply to:
paulo fidalgo
's message, "rendição ao grupo dos 9" on 12/12/04 8:13
>Concretiza por favor a tese de que, após a queda de
>Vasco Gonçalves, o PCP fez um acordo de rendição ao
>grupo dos 9
Não, não foi logo após a queda do Vasco na Assembleia do MFA de Tancos.
Eu disse que foi "na primeira oportunidade" após isso.
Não sei quando e em que termos se firmou o acordo entre o PCP e o grupo dos 9. Isso ainda não está estabelecido, embora já tenha lido referências a encontros em casa do próprio Melo Antunes.
Tanto quanto sei, até pode ter sido antes da queda do Vasco, embora isso me pareça perfídia a mais. E no entanto, há fortes indícios disso. Por exemplo, a 28 de Agosto o PCP abandona unilateralmente a Frente de Unidade Popular (FUP), que mantinha com a FSP, a LCI, a LUAR, o MES, o MDP/CDE e o PRP/BR e que dava apoio ao V Governo. Em conferência de imprensa, o PCP propõe então um encontro a nível militar e civil para "clarificar a situação" política. Tirou o tapete ao Vasco. Mas o Vasco continuou em luta, denodadamente, tendo sido finalmente batido em Tancos, a 5 de Setembro, e exonerado do cargo de 1º ministro a 12 de Setembro.
O que sei é que esse acordo (PCP-9) entrou em efeito logo após o golpe de 25 de Novembro. Nessa altura, famosamente, o Melo Antunes apareceu na televisão a dizer que a participação do PCP era essencial às instituições democráticas. A situação político-militar ficou na mão do sector dos nove, a que o Eanes era também afecto. A direita fascistóide e trauliteira ficou furiosa, com o Jaime Neves, por eles, a dizer que não estava satisfeito.
Agora que existiu esse acordo, é certo, certíssimo. Isso já está bem estabelecido e é consensual entre todos os historiadores. O próprio Álvaro Cunhal o admite na "Verdade e Mentira", embora chamando-lhe "aliança não negociada". Foi só um entendimento subtil, um piscar de olhos. Diz ele, na sua característica linguagem críptica (p. 228 do livro):
"Há quem não compreenda como foi possível a surpreendente solução política, que no imediato veio a resultar do golpe. Com a salvaguarda das liberdades e da democracia. Com a formação de um governo em que continuou o PCP. Com a aprovação e promulgação da Constituição pela Assembleia Constituinte.
E entretanto essa solução política era uma possibilidade há muito considerada pelo PCP na sua análise da situação e na sua acção prática. Uma tal saída política do golpe «contra o PCP» resultou da aliança, não negociada, não debatida, não acordada, não explicitada, mas aliança com o PCP, conjuntural e objectivamente existente, de chefes das Forças Armadas, destacados participantes na preparação do golpe e na sua execução, mas defensores da continuação das liberdades e da democracia política."
"Aliança não negociada"? Um subentendido apenas, numa situação desta gravidade? É isto que me lixa em Álvaro Cunhal. Quer fazer de nós parvos até ao fim. Mente com quantos dentes tem e acha que isso é um grande fardo pessoal para ele, na sua solidão majestática. Acha que o faz por nós, mas na verdade fá-lo por ele, e apenas por ele, para salvaguardar o seu prestígio histórico.
Eu salientaria, no entanto, aquela parte em que ele diz que esta solução já era considerada "há muito" pelo PCP.
Porque o problema está todo aí. Talvez não fosse possível nem sensato tentar salvar a revolução naquele dia 25 de Novembro de 1975. Mas o PCP já tinha saltado fora do combóio há muito tempo, nunca lá tendo aliás estado por gosto. O PCP de Álvaro Cunhal nunca quis uma revolução socialista e proletária em Portugal.
Ângelo Novo
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
| |