Logo pela manhã, a freguesia que apareceu prá conversa estava bêbeda. Bebedeira já longa de anos, e ainda por cima tomada com marxismo adulterado, o que não só deixa a mente toldada como a dizer coisas sem nexo. Saturado, decidira não frequentar a tasca.
Agora apareces tu, freguês habitual, pavão impante, erudito de cábulas mal decoradas pescadas na rede, e o mais que já se sabe, a mandares umas postas de pescada, dando ares de te teres enfrascado com um marxismo menos martelado.
Não resisti a voltar à tasca! Fatal comó destino! Tanto mais que para estas tuas bacoradas até eu chego!
1. "a força de trabalho não é factor produtivo necessário e suficiente para a produção das mercadorias em geral". Começas logo por mostrar que continuas o mesmo desonesto empedernido. Numa frase onde José Manuel Correia diz que “a força de trabalho não é factor produtivo necessário e suficiente”, tu arranjas duas frases, como se numa ele dissesse que não era necessário e na outra dissesse que não era suficiente. Típica lacuna de pavão iletrado? Não! Típica maldade de vigaristazeco! “Necessário e suficiente” são duas condições cumulativas que a força de trabalho deveria reunir para que as mercadorias fossem produzidas apenas por ela (e, com as mercadorias, o valor); não são condições alternativas! Com expedientes destes, como é que te deram um diploma? Eventualmente, o júri era tão burro como tu!
2. “Em todo o caso cabe lembrar que os preços por que são vendidas as mercadorias não são (nem deixam de ser 'marxistas')”. O teu marxismo, afinal, é de pacotilha. Se soubesses alguma coisa de marxismo, saberias o significado dos conceitos (marxistas) de “preço de mercado”, “valor de mercado” e “preço de produção”. Como não pescas peva, dizes bojardas destas. Se soubesses, e tivesses capacidade crítica, saberias porque razão toda a teoria do valor do Marx está errada. Dou-te só um cheirinho, uma das razões: porque mesmo em situação de equilíbrio entre a oferta e a procura, as mercadorias não se vendem pelos seus valores (os tais valores sociais do Marx; e, para aprenderes, os tais que ele designa por “valores de mercado”, os valores médios ponderados, que não têm a ver com composições do capital, mas com a ponderação dos diversos “preços de mercado” na formação do “valor de mercado”). Bem, mas também não te vou adiantar mais, porque seria “dar pérolas a porcos”. Queres saber? Vai estudar! Quem não estuda não deveria ter direito à palavra!
3. “Para este autor, teremos então que, independentemente da forma como é (ou não) determinada o valor da força-de-trabalho, esta é vendida abaixo do seu valor. Creio que podemos concluir que estaríamos então sistemáticamente perante situação de sobre-exploração”. Também sobre a exploração não pescas peva! Bem, tu não pescas peva de nada! Só sabes é pavonear-te! Sabes, ao menos, o que é o valor de troca? É o custo a que os produtores aceitam alienar as mercadorias que produzem! O que ele acaba por traduzir prende-se com o tipo de mercadorias e os factores de produção implicados. Para as mercadorias capitalistas, tempo ou capital (como se queira, porque o capital compra tempo); e a sua dimensão é a que a concorrência e as oscilaçoes da oferta e da procura permitirem. Para a força de trabalho, outros muitos factores, entre eles o tempo produtivo das mercadorias que entram na sua produção como matérias-primas; e a sua dimensão é aquela que as oscilações da oferta e da procura e a intervenção do Estado do capital permitirem.
Mesmo usando as suas categorias conceptuais, a concepção da exploração do Marx baseia-se numa contradição lógica: apesar de vender a força de trabalho pelo seu valor, e de com a venda alienar a sua utilidade (traduzida no valor que ela produza), mesmo assim o trabalhador é expoliado da diferença entre o valor que a força de trabalho acrescentou e o valor com que foi remunerada. Então o trabalhador vendeu e, apesar disso, continua com direitos sobre o que resultou do uso? Mas, então, isto é à vontade do freguês, ou quê? O contrato de alienação da força de trabalho é um contrato de compra e venda ou um contrato de sociedade (e, neste caso, só para direito ao benefício e nenhuma responsabilidade sobre o prejuízo)?
Como vês a concepção marxista baseia-se numa indignidade moral sem qualquer fundamento. Acrescendo, ainda, que a força de trabalho não produz valor sozinha (e, é para reforçar a inconsistência da concepção marxista que o José Manuel Correia demonstrou que a força de trabalho não é factor produtivo necessário e suficiente para a produção de valor).
A concepção da exploração do José Manuel Correia é não só uma concepção original como coerente, comprovada pela lógica e pela realidade da vida. Os trabalhadores são explorados porque a mercadoria força de trabalho é vendida abaixo do valor a que os seus detentores aceitariam vendê-la. Para além da dependêncial vital que a sua alienação representa para os seus detentores (porque se não a venderem morrem de fome, chave da dominação pelo salariato), o que facilmente os coloca à mercê do comprador, e para além da influência da oferta e da procura, comum a qualquer mercadoria, a dimensão mínima do seu valor é determinada pela biologia, enquanto a dimensão máxima é fixada pela intervenção do Estado (sob as mais diversas formas), de modo a não pôr em causa uma determinada taxa de lucro. Este conjunto de factores extra-económicos, políticos, é o garante da exploração.
Que é que isto tem a ver com os economistas clássicos? Nada de nada! Alguma vez alguém veio dizer que a exploração era um facto meramente político! Isso está fora das conjecturas de qualquer economista! Apesar de não conheceres nada do Marx, e de conheceres ainda menos dos economistas clássicos, qual pavão impante, ao estilo característico de erudição cabular pescada na rede, tratas de apodar aquela concepção de ricardiana! Enxerga-te, pá! Tem um pouco de vergonha na cara! E vai aprender qualquer coisa, antes de te pores aqui a vomitar baboseiras.
Para além do Fidalgo Tiroliroli e do Statter Tiroliroló, tasca é frequentada também por outros pseudo marxistas, que de marxistas parecem só ter o rótulo. São mais comunistas de fé, apegados afectivamente à profecia idealista, do que conhecedores da obra do profeta! Não dá para irem estudar um bocadinho, para que a discussão da teoria se possa fazer com algum fundamento, com seriedade e com algum conhecimento de causa? Quem sabe, pode ser que a discussão teórica contribua para conhecer um pouco melhor a realidade prática para além das aparências e das emoções do momento!