Subject: Re: o uso do capitalismo por um projecto de transformação
Author:
António Fagundes
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Date Posted:21/08/04 13:33 In reply to:
paulo fidalgo
's message, "o uso do capitalismo por um projecto de transformação" on 21/08/04 10:39
Gostava que outros participantes no fórum interviessem com outros pontos de vista sobre este interessante tema que o Blanch oportunamente lançou para discussão, em vez de estar eu próprio a intervir novamente. Mas, já que ver as olimpíadas pelo computador permite ir lançando uma olhadela às novidades que vão aparecendo no fórum, e como não aparece ninguém com pachorra para responder ao Fidalgo, tomo a iniciativa de o fazer.
Os considerandos da pergunta parecem-me confusos, pois fica sem saber-se se a “aparência agradável ou desagradável, mais democrática ou menos” se refere à própria pergunta ou à situação na China. Supondo que se refere à situação na China, faço eu próprio uma pergunta: será que a situação política ser mais ou menos democrática é apenas uma questão de nos ser agradável ou desagradável?
Colocar a coisa nestes termos parece-me, no mínimo, revelador de pouco apreço pela democracia política, pecha de que os comunistas custam a libertar-se. Eles confundem as limitações ao exercício de muitos direitos e liberdades, consagrados na lei como de uso pleno, que ocorrem nas sociedades de democracia burguesa, provenientes, em muitos casos, da não detenção do poder económico e da propriedade dos meios de produção, com a negação pura e simples desses direitos. Não compreendem que qualquer democracia política é uma ditadura não por negar direitos mas porque as classes dominantes os usam em maior amplitude e intensidade, permitindo-lhes as melhores condições para difundirem os seus valores, defenderem os seus interesses e consolidarem o seu domínio, transformando as suas interpretações da realidade em ideologia dominante. A prática das liberdades democráticas é o melhor espelho da solidez do poder das classes dominantes; quando o sentem ameaçado, a primeira medida que tomam é precisamente jogar a democracia às urtigas!
Pessoalmente não estou vocacionado para discutir “processos de transição”, mas, já que me aventurei nesta intervenção, comento a pergunta. Uma grande interrogação se me depara: sendo a China considerada ainda um país socialista, de ditadura do proletariado (eu diria, de ditadura burocrática sobre o proletariado e o campesinato), atravessando um processo de grande abertura ao capitalismo privado e de partilha do poder político com a florescente burguesia nacional, ainda mitigada e no interior das instituições do poder “popular”, este processo pode ser considerado “processo de transição”? Se sim, é transição para quê? Para o comunismo ou para o capitalismo?
Se formulei correctamente as premissas, as respostas não me parecem complicadas nem necessitam ser extensas. Parece-me que a China atravessa um processo de transição, iniciado já há alguns anos, após a derrota da facção maoista do bando dos quatro, que conhece actualmente uma grande expansão do capitalismo privado, e que se irá manter por alguns anos ainda. Mas, ao contrário do que a pergunta do Fidalgo parece sugerir, não me julgo que este processo seja uma pausa no processo revolucionário comunista, para ganhar fôlego para nova arrancada. Tendo sido iniciado mais de trinta anos após a conquista do poder pelos comunistas, quando a colectivização estava generalizada, ele parece-me constituir um processo de transição paulatino para o capitalismo privado, tentando evitar os sobressaltos e o caos do desmoronamento soviético, depois dos bloqueios, da desorganização e da quebra acentuada nos níveis de desenvolvimento a que o esquerdismo voluntarista maoista acabara por conduzir o País.
Basta lembrar-nos dos fiascos algo surrealistas do maoismo – o grande salto em frente, com o qual pretenderam melhorar as colheitas matando os pardais e aumentar a produção de aço com as fornalhas caseiras, ou a grande revolução cultural proletária, durante a qual sanearam quadros a torto e a direito e mandaram duas ou três gerações de estudantes temperar o fervor revolucionário no trabalho nos campos, comprometendo por alguns anos a formação de toda a sorte de técnicos e de investigadores – para facilmente se perceber que sem o apoio soviético e com o bloqueio comercial americano o socialismo havia chegado a um beco sem saída, que o maoismo apenas agravou e tornou mais visível.
A política de unificação nacional, com a integração dos velhos enclaves coloniais e o namoro aos compatriotas capitalistas da Formosa, apoiada numa estratégia de captação de investimento de forte componente tecnológica de ponta e de fomento das exportações, com recurso primeiramente à diáspora e, depois, através da adesão à OMC, parecem-me evidenciar um avanço notório dos valores tradicionais do capitalismo privado do que uma ajuda ao socialismo.
A conjugação de salários baixos com indústrias de elevada composição orgânica de capital, geradoras de produtividades e de taxas de lucro elevadas, permitirão a continuação do investimento (incluindo do investimento estrangeiro, que não desperdiçará este maná), o desenvolvimento rápido de uma burguesia nacional numerosa, o florescimento da corrupção entre a burocracia, o desmoronamento de muitas unidades estatais e a sua privatização, etc.. Haverá, certamente, muita gente a apostar na China como o futuro gigante económico asiático. Resta ver como evoluirão as relações de forças geo-estratégicas, se os títulos da dívida pública americana constituirão um dissuasor suficiente e se a novel classe operária chinesa terá algo a dizer ou se se contentará com os níveis salariais que usufrui (apesar de tudo, bem melhores do que os que tinha).
Não discuto sobre a NEP, mas lembro que ela foi um recurso perante a exaustão a que o comunismo de guerra havia conduzido o País (com as requisições arbitrárias e a retracção do campesinato). O que a colectivização forçada que se lhe seguiu representou ainda hoje divide muita gente, mas tenho para mim que ela, sim, foi a revolução socialista a sério, porque, com a NEP, a questão que se punha era capitalismo privado ou socialismo. Se Lenine não tivesse morrido entretanto e a solução viesse a ter os mesmos resultados (ainda que por outros métodos), esta questão não se poria, mas a História foi assim. E não compreendo porquê, depois de tantos vivas à União Soviética, os comunistas recolocam, hoje, a questão do desenvolvimento da NEP em contraposição à colectivização!
Uma última questão, marginal: Bukharine e outros foram fuzilados pela intolerância em que facilmente se transfigura o fanatismo comunista, de raiz totalitária, e não apenas pela sanha estalinista de eliminação dos adversários políticos.
António Fagundes.
>independentemente do aspecto exterior, da aparência
>agradável ou desgradável, mais democrática ou menos,
>faço a seguinte pergunta mais abstracta:
>
>Pode um processe de transição deixa de contar com um
>plano em relação ao capitalismo, de eventualmente usar
>para certos fins?
>
>Desde a discussão da NEP que este problema está
>presente. Foi ele que levou ao fuzilamento de
>Preobrajensky e Bukharine.
>
>E está presente nas oscilações entre Liu Cha Shi, o
>grande salto em frente a revolução cultural e a
>emergência de Deng Xiao Ping
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