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Subject: Resposta a algumas observações injustas


Author:
Jorge Nascimento Fernandes
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Date Posted: 18/08/04 15:06
In reply to: Jorge Nascimento Fernandes 's message, "Discutamos política em vez de pessoas" on 17/08/04 19:18

Resposta a algumas observações injustas

Para mim o capitalismo não é inexpugnável, por isso acalento um projecto comunista para a sociedade, simplesmente, tal como já dizia o Paulo Fidalgo neste mesmo debate, o socialismo, a construção de uma sociedade socialista, está hoje longe de estar em cima da mesa ou, se quiserem, na ordem do dia. A revolução, a alteração de poder, a possibilidade de construirmos uma sociedade socialista, é hoje um objectivo a longo prazo, o que não invalida que se lute por ele.
É esta dialéctica entre os objectivos presentes e possíveis e o objectivo final que é preciso estabelecer. Por outro lado, o caminho a percorrer e como percorrê-lo é também importante.
É nesse sentido que vai o meu texto, provavelmente o seu título não será feliz, pois o que estava em discussão não é eram as pessoas, mas a facilidade como se passou rapidamente da discussão sobre três candidatos a secretários-gerais do PS para o que seria o socialismo. Hoje, mais do que nunca, é preciso discutir política, no fundo retomar aquilo que foi o objecto de estudo e da acção de Lenine, ou seja, como politicamente mudar a sociedade e que instrumentos utilizar para o fazer. É evidente que não foi só Lenine, e provavelmente muito do que ele disse tem que ser repensado à luz não só das sociedades ocidentais, como tendo em atenção as profundas alterações que se verificam nas sociedades actuais e daí, a minha referência, em tempos, a Gramsci e do seu conceito de que a luta política nas sociedades ocidentais é uma “guerra de posição” e da defesa que faz da necessidade de conquistar uma posição cultural e ideológica hegemónica na sociedade. No fundo, aquilo que eu queria criticar é a muita discussão económica e a pouca discussão política.
Mas voltemos aos pontos concretos do Fernando. Quando falo nas suas afirmações definitivas e pouco dialécticas, estou-me a referir a um conjunto de intervenções feitas aqui na “net” que se por um lado conduzem a um juízo muito taxativo sobre os problemas levantados (com respostas de sim ou não), por outro os simplifica demasiado, não os analisando no seu contexto e contradições. É evidente que um juízo dialéctico não obrigaria a tomar posição por um dos candidatos a secretário-geral , mas permitiria perceber que não é da natureza intrínseca do PS, ou seja da social-democracia, propor um “projecto socialista para Portugal”. Dizer que nenhum dos candidatos é bom porque não têm “um projecto socialista para Portugal” é hoje uma simplificação abusiva e apreçada da realidade.
A seguir afirmei que nenhum dos Partidos que actualmente se dizem de esquerda, e têm representação Parlamentar, tem neste momento, a não ser a longo prazo, “um projecto socialista para Portugal”, já que, como é compreensível, o socialismo está longe de estar na ordem do dia e provavelmente os iria dividir de forma desastrosa. Como será possível encontrar algo de comum num “projecto socialista para Portugal” entre o PS, o BE e o PCP? Caro Fernando, se te lembrasses do que os movimentos esquerdistas queriam antes do 25 de Abril, saberias que era isso mesmo que pretendiam como objectivo revolucionário para o movimento anti-fascista, coisa que sempre exasperou o PCP, cujo objectivo era o levantamento democrático e nacional (não me recordo com precisão dos termos). Sei que não estamos no fascismo, mas propor hoje, como na altura, “um projecto socialista para Portugal” como o objectivo imediato da esquerda, é pôr o carro á frente dos bois, e propor metas irrealista à “alternativa de esquerda”.
No teu ponto 4, e eu não os tenho vindo a citar para não dificultar a vida ao leitor, estamos de acordo. O que eu quero é a discussão. Mas desde já contribuo com a afirmação de que a construção de “um projecto socialista para Portugal” depende muito da situação política e da luta de classes na UE. Se a construção do socialismo não resultou num só país, e ele era tão imenso como a Rússia, muito menos resultará num pequeno país periférico como Portugal, hoje sem qualquer apoio do Bloco Soviético.
Quanto ao ponto 5, gostaria de te lembrar algumas factos. Marx nunca disse o que seria a sociedade socialista. Fez a crítica vigorosa do capitalismo mas nunca delineou o que seria a sociedade futura. Daí a enorme dificuldade dos bolcheviques em construírem o socialismo na URRS. Não sei se sabes, que os primeiros planos quinquenais que se fizeram na União Soviética foram buscar a experiência da planificação alemã da I Guerra Mundial, dado que aquele país para poder ganhar a guerra teve que iniciar um controlo sobre a sua economia e a sua produção. Portanto, sem impedir que se discuta o que poderá vir a ser a sociedade socialista, e hoje já há muito mais informação sobre o que foi o modelo soviético, temos que ter algum pudor em pensar que nós aqui podemos definir o que seja um projecto socialista para Portugal. Quase que me atreveria a propor que o socialismo se constrói, construindo.
Descobri que falta uma resposta ao ponto 3. Sabes que a vitória do Santana em Lisboa, e sobre isso acho que o Carvalhas já disse tudo na última entrevista que deu na TV, foi porque o adversário, o João Soares, com a habitual arrogância que o caracteriza, se esteve marimbando para fazer campanha eleitoral, acreditando que a obra feita era suficiente. Pagou bem caro por isso.
Ora o que a alternativa de esquerda tem que fazer é propor um conjunto de pontos, diferentes dos da direita, que poderia executar em conjunto e, evidentemente, aparecer com credibilidade política para os pôr em prática. Fossemos nós capazes de fazer isto e penso que seria meio caminho andado para a tal construção do projecto socialista para Portugal.
Como vês não discutimos uma única pessoa, mas sim política e o que pensamos da alternativa de esquerda.

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Subject Author Date
O "socialismo" para as calendas...Fernando Penim Redondo19/08/04 16:28


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