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Subject: Re: O que é a Renovação Comunista e o leninismo


Author:
António Fagundes
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Date Posted: 19/08/04 0:15
In reply to: Jorge Nascimento Fernandes 's message, "O que é a Renovação Comunista e o leninismo" on 18/08/04 16:57

Se a troca de pontos de vista pode servir para alguma coisa, continuemos.

Antes de mais, desfaço qualquer malentendido que possa ter surgido das minhas intervenções anteriores.

Longe de mim pretender que os membros da RC intervenham nos fóruns que me dêem jeito. Mas que melhor fórum para os membros da RC apresentarem os seus pontos de vista que o do seu próprio site? Ou este, que o Redondo pôs explicitamente ao serviço da discussão em torno de questões ideológicas e políticas e das posições da RC? E num ou noutro, convenhamos, as intervenções não abundam.

Em relação às críticas ao PCP e ao significado da última parte do parágrafo respeitante ao assunto na minha anterior intervenção. Não compreendo porquê a RC lhe critica aquilo que designa por desvio obeirista: se por a RC perseguir os mesmos desígnios revolucionários e entender que aquele desvio se afasta da linha justa de um partido revolucionário; se por a RC ter abandonado a concepção leninista de revolução e, neste caso, o que chama de desvio obeirista constituir um obstáculo a uma desejável aliança do PCP (ou de qualquer outro partido comunista) com o PS. Para um partido leninista, a partilha do poder do aparelho do Estado do capital não é um objectivo estratégico mas meramente táctico, que não pode sacrificar a estratégia. Ora, pelo que deduzo de intervenções de membros com responsabilidade no movimento (nomeadamente, E. Correia e alguns outros), quer-me parecer, eventualmente equivocadamente, que a RC faz da partilha do poder (em aliança com o PS, ainda que uma tal aliança venha sendo sistematicamente recusada por este) um objectivo central da política conjuntural, e que esta (agravada depois com as decisões administrativas que alguns dos seus membros foram alvo enquanto militantes do PCP) constituirá a grande divergência de fundo entre RC e PCP. Eventualmente engano-me, e as coisas evoluíram já para outros níveis, mas foi esta contradição que quis focar.

Quando me referi às intervenções do Fidalgo, que julgo pertencer à RC, referia-me às suas intervenções neste fórum e a um texto longo que está neste site. Não vejo porque seja de mau gosto classificá-las de fracotas. Se a sua outra abundante prosa for do mesmo nível, não é o ser abundante que poderá alterar a minha apreciação. Por outro lado, sem qualquer ofensa, classificar a prosa do Fidalgo, como teoria marxista parece-me um pouco forçado. Mesmo a produção mais interessante do Cunhal se enquadra mais no âmbito da análise da conjuntura política e da fundamentação da táctica partidária do que no da teoria marxista. Aliás, o Cunhal é fundamentalmente um persistente, diligente e arguto prático dirigente partidário, e um artista de algum mérito, mas está longe de ser um teórico marxista (espero não ter ferido susceptibilidades com estas apreciações).

O facto do panorama teórico entre nós ser de um vazio confrangedor não concede valor ao que se produza e não o tenha; e também não me parece exagerado clamar contra a pobreza teórica da RC, nomeadamente porque não pode ser impunemente que os seus membros entram em rotura com o PCP e adoptam a designação de Renovação Comunista. A não ser que a rotura não tenha passado de luta de galos e a renovação não passe da tão invocada aproximação ao PS. Para merecer o nome, impõe-se, portanto, que a RC clarifique o que pretende renovar e apresente algo fora da intervenção política prática (para a qual a sua capacidade é nula). Não vivemos em qualquer clima pré-insurrecional, o tempo não urge e a acção prática, nesta conjuntura, não é o mais importante; se assim é, que produzam algo no aspecto teórico, nem que sejam as suas próprias dúvidas ou, até, um qualquer plano de dinamização da discussão organizada. Julgo que até num simples clube de discussão seria o mínimo, quanto mais num movimento político dito renovador.

Penso ser tempo de as roturas passarem por clarificações ideológicas, de modo a não se confundirem com meras divergências tácticas (que podem e devem ser resolvida pela luta política interna, por mais entraves que lhe sejam colocados). Agora, que o comunismo faliu e a Rússia e a China foram trazidas para a modernidade, o campo da representação partidária classista só terá a ganhar com um debate profundo e alargado que proceda a uma crítica séria do marxismo e do leninismo (e isto não apenas em Portugal). Que raio! Serão o marxismo ou o marxismo-leninismo as únicas ideologias legítimas para defender adequadamente os trabalhadores assalariados? Ou o que se tem em mente é ser os agentes do progresso e os interesses de quem trabalha lhe devem estar subordinados, já que a ideologia marxista profetizou que assim seria?

Enquanto o capitalismo se vai transformando quotidianamente, os que afirmam falar em nome dos interesses dos trabalhadores contentam-se em proclamar a sua derrocada próxima, propalando a catástrofe iminente, tal como fazia a Luxemburg há perto de cem anos, peados como estão pelas profecias pseudo científicas do Marx e do discípulo Lenine. Até parece que colocam a adesão a uma ideologia determinada, e não a representação dos interesses de determinada classe, como fundamental para a organização em partido e a acção política.

Será que a realidade é tão complexa assim que não tenha permitido ainda enxergar quem e por que meios é engendrado o progresso social?

António Fagundes.


>O que é a renovação Comunista e o leninismo
>
>Ultimamente este fórum tem andado mais interessante,
>os insultos permanentes e as acusações que aqui se
>travaram deixaram de se verificar. Por isso, é
>possível hoje, com alguma serenidade, discutir os
>temas propostos. Vem isto a propósito de uma discussão
>que aqui se tem travado a propósito da Renovação
>Comunista.
>Algumas posições têm sido bastante críticas, mas todas
>elas, parece-me dentro do limite do razoável.
>Deixem-me começar por responder ao António Fagundes,
>que me parece ser aquele que mais problemas
>interessantes levanta.
>Em primeiro lugar não se pode exigir aos renovadores,
>que respondam nos sites que nos dá jeito que
>respondam, pois podem muito simplesmente não os
>frequentar, nem gostar deles. Quanto ao seu site
>(www.comunistas.inf) reconheço que a crítica pode ser
>justa, apesar do esforço ultimamente feito para o
>melhorar, apesar das cores berrantes em que isso é
>feito.
>Quanto às três opções, que depois transformou em
>quatro, parecem-me interessantes e gostaria de
>responder com alguma prudência, dado que não sou
>porta-voz da RC, nem tenho mandato para isso, sou um
>dos seus participantes que gosta de pensar pela sua
>cabeça.
>1 º Renovação do PCP.
>Há na sua última intervenção algum exagero,
>principalmente não percebo o seu último parágrafo, mas
>consideremos unicamente o está em causa.
>A RC não está neste momento vocacionada para órgão de
>pressão sobre o PCP. Penso que esse facto já se
>verificou, quando se pediu a realização extraordinária
>de um Congresso, mas isso já foi ultrapassado. Apesar
>de haver muitos amigos que ainda consideram a RC como
>visando alterar o PCP, e outros, como eu próprio, que
>nunca se demitiram de militantes do PCP, mas que foram
>simplesmente ignorados por ele, votados ao limbo, ao
>esquecimento. É típico de um certo estalinismo, ou
>jesuitismo, que, para não levantar escândalo, não
>demite os seus militantes, fá-los simplesmente
>desaparecer do ficheiro. Triste história.
>A corrente que ainda pensa que é possível renovar o
>PCP, penso que se traduz naquela que apelou ao voto na
>CDU nas últimas eleições.
>Reconheço que este assunto não foi completamente
>resolvido e daí algumas ambiguidades que se têm
>verificado.
>2º Renovação da ideologia comunista. Eu diria da ideia
>comunista.
>Parece-me que esta é sem dúvida aquela classificação
>que nos ficaria melhor, apesar de ser sempre
>limitativo espartilharmo-nos em um só conceito.
>Não vou agora discutir o que fica o que se vai de Marx
>e Lenine, no entanto, considero que será um pouco de
>mau gosto vir dizer que as intervenções do Paulo
>Fidalgo são muito fracotas, quando o mesmo tem
>produzido abundante prosa, não só aqui como noutros
>lugares, e num ambiente, como o português, que é tão
>pobre em discussões da teoria marxista. Gostaria que
>me citasse, sem ser o Álvaro Cunhal, e em seu tempo,
>quem tivesse, com alguma originalidade produzido obra
>teórica que se visse. Mesmo à esquerda, Bloco e PS,
>nada de novo se tem verificado. Portanto, no ambiente
>tão pobre como é o português, vir clamar contra
>pobreza teórica da RC parece-me um bocado exagerado.
>3º Ganhar peso para entrar no PS ou no BE.
>Parece-me que já passou demasiado tempo para se
>verificar que esta não foi a opção da RC. Era essa sem
>dúvida a opção que os comunistas ortodoxos gostariam
>que fizéssemos. De facto, isso não sucedeu e já
>tivemos mais força do que aquela que agora temos para
>podermos entrar com mais estrondo naqueles partidos.
>Isso não impede de se fazerem alianças, colaborações
>pontuais ou militantes da RC poderem participar nas
>suas listas, como de facto já sucedeu.
>4º A última hipótese, acrescentada nesta sua segunda
>intervenção, deixa de ter sentido face á resposta que
>foi dada em relação à segunda.
>Por agora por aqui me ficaria, deixando o tema do
>leninismo para outra altura.

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Replies:
Subject Author Date
Um bom partido trabalhista IJorge Nascimento Fernandes19/08/04 11:36


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