Subject: Re: Cientificidade em Ciências Sociais (já agora...)
Author:
António Fagundes
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted:26/08/04 17:33 In reply to:
Guilherme Statter
's message, "Cientificidade em Ciências Sociais (já agora...)" on 25/08/04 0:43
Infelizmente, a "ideia pateta" da inevitabilidade do comunismo, ainda para mais escudada numa pretensa "previsão científica", tem de ser atribuída ao Marx. Para o bem e para o mal, a obra do Marx não é constituída por um contínuum em crescendo, tem altos e baixos, ambiguidades, contradições e erros (para além, é claro, de muita coisa boa), não se resume a “O Capital” e integra também o “Manifesto do Partido Comunista”. Mas é facto que os marxistas e os que tal se afirmam contribuíram, mais do que o próprio Marx, para as vulgarizações que lhe são atribuídas.
A sua intervenção, apesar da forma, é um exemplo da vulgarização do Marx e de outros. Ora veja lá você que o Marx só formulou uma lei, e essa tendencial (e... errada nos seus pressupostos e conclusões!), e há gente que vem aqui dizer que a inevitabilidade do comunismo lhe deve ser atribuída e que isso reflectiria uma concepção determinista da História (ainda por cima, em contradição com outras suas afirmações), etc., etc.! Essa gente tem mesmo falta de pudor, não tem?
Atentemos nesse outro seu naco: "É que o futuro não está determinado. Apenas condicionado pela herança histórica concreta. (...) E como o futuro não está determinado, ele dependerá apenas e tão só da vontade dos homens e mulheres e - sobretudo - do seu engenho em "dar a volta" às tais "condições iniciais"...".
Quereria você dizer que "o futuro não está pré-determinado"? Se assim for é o contrário da inevitabilidade do comunismo! Mas não estando préviamente determinado é ele determinado pela vontade dos homens? Se assim for, o futuro é determinado (como o passado o foi e o presente o é), e o comunismo é determinado pela vontade dos homens! Quer dizer, atendidas as tais “condições iniciais”, porque não se pode desejar o Sol, o resto é à vontade do freguês! Mas à vontade de qual freguês, se nesta tasca social há fregueses com gostos e interesses para os mais variados futuros? E, ainda por cima, se alguns, que se julgam os donos da tasca, têm as vinhas e as uvas de que se faz o vinho que a malta bebe, estão armados de varapaus e pontas e molas (ou têm campangas contratados para o efeito) ou têm um falar tão doce que faz a restante freguesia pensar que o branco é preto!
Como tudo o que existe foi e é determinado, porque tem causas, não existe por obra e graça do divino espírito santo, o futuro é também ele determinado, só que não o é pela vontade dos homens. É determinado (causado) pela miríade de lutas entre interesses divergentes, antagónicos uns, outros nem tanto, em variados campos e que se manifestam por formas também muito variadas, e é o resultado dessas lutas de interesses, que só raramente correspondem completamente a qualquer deles (pela acção de condicionantes prévias, pelas relações de forças e pela incompreensão ou previsão dos efeitos, enfim, pela realidade existente e pelo intervalo de variabilidade que ela possibilita).