| Subject: Para que serve um partido comunista? |
Author:
Ângelo Novo
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Date Posted: 23/11/04 11:24
In reply to:
visitante muitíssimo divertido
's message, "Re: PCP: um esboço de antropologia portuguesa" on 22/11/04 22:28
>Aqui no Dotecome, em 28/12/03 (no forum do XVI ao XVII
>Congresso do PCP (sexto)) respondia assim o novo
>anjinho ao Paulo Fidalgo:
>
>“(...) Aqui, na Europa, sou a favor de uma estratégia
>gramsciana de ocupação de espaços de influência
>ideológica e cultural na sociedade civil, mas com
>abertura para a emergência de focos de insurreição
>política.
>
>Sou a favor da radicalização dos movimentos sociais,
>com ocupação de fábricas, centros de emprego,
>segurança social, "shopping-centers", grandes
>superfícies, empresas de distribuição de água e
>electricidade privatizadas, etc..
>
>Sou a favor da eleição de comités de luta por cidades,
>regionais, nacionais, pan-europeus. E sou a favor,
>naturalmente, do enquadramento político das lutas por
>uma organização revolucionária dotada de uma
>estratégia clara, lúcida e coerente.
>
>É claro que a situação não está ainda madura para isto
>e, neste momento, parece-nos (até a mim) radicalismo
>infantil. Mas espere por daqui a dez, quinze anos,
>pelo caminho que as coisas tomam.”
>
>Ângelo Novo
Eu não devia dar mais paleio a estes energumenozinhos ignorantes. Mas em atenção ao restante público interessado, aqui vai um esclarecimento paciente.
Isso que aí se deixou esboçado (de improviso e recorrendo apenas à imaginação) é uma tomada de poder. Um partido proletário de inspiração marxista e leninista (deixemos de fora o hífen) constitui-se e mantém-se em luta com o objectivo de tomar o poder e instaurar uma nova ordem social. Há certamente quem milite no PCP há anos (ou mesmo décadas) e caia dos céus ao ouvir isto. Mas é de facto assim.
Ora, nem sempre se depara ao partido uma situação revolucionária. Então há que esperar, sim, e ir construindo pacientemente essa oportunidade histórica. Entretanto, o partido mantém-se organizado e interventivo, no plano da reivindicação social, e eventualmente com participação nas tribunas que lhe são proporcionadas pela "democracia" burguesa, mas sempre de forma instrumental, sem ilusões. O seu objectivo é a tomada revolucionária do poder, para a instauração de um outro regime político e social. Um regime democrático, obviamente, mas com outro tipo de instituições, moldadas para o exercício do poder pela classe produtora.
Nunca, mas nunca, as instituições políticas burguesas algum dia no mundo vão desembocar, por milagre "progressista", em qualquer democracia "avançada" a caminho do socialismo. Nunca, mas nunca, da democracia burguesa sairá algo que não seja opressão de classe, imperialismo e guerra.
Mas esta é a estratégia do PCP, colhida no tempo da "coexistência pacífica" e numas teorias ilusórias sobre transição pacífica. Há quarenta anos atrás, num outro mundo.
O que quer dizer que, armado com esta estratégia e da cultura política que dela decorre, o PCP nunca será uma força revolucionária. Na verdade, deparando-se-lhe uma situação revolucionária, ele vai certamente ordenar aos trabalhadorers que regressem a casa, que vão para o trabalho pacientemente porque tudo se há-de resolver pelas vias da concertação social normal. E viveríamos em regime de ditadura de classe e sujeitos à exploração capitalista até ao fim dos tempos.
Logo, para quem se dá como tarefa lutar em Portugal pelo fim do regime de exploração capitalista, o PCP não serve. Ou o partido muda radicalmente (mas já não há muito tempo e a pachorra vai-se esgotando) ou terá de ser posto de lado como uma velharia inútil e perniciosa. Uma velada sem fim por ruins defuntos (refiro-me ao Brezhnev e co.).
Ângelo Novo
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