| Subject: Re: TROCA DESIGUAL E EVOLUÇÃO SOCIAL - 1 |
Author:
António Fagundes
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 31/08/04 0:09
In reply to:
José Manuel Correia
's message, "Re: TROCA DESIGUAL E EVOLUÇÃO SOCIAL - 1" on 30/08/04 22:30
Caro Zé Correia.
Uma vez mais, obrigado pela clareza com que me tens ajudado a compreender cada vez menos mal esta coisa que chamam de realidade.
Oxalá aqui neste fórum aprendam também alguma coisa com o teu inestimável contributo.
António Fagundes.
>Os excertos da polémica que se vem travando no
>rebelion.org sobre se “Es el marxismo una ciência?”,
>que o meu ex-camarada e ainda particular amigo António
>Fagundes para aqui transcreveu tão oportunamente, são
>de facto reveladores de que os marxistas mais não têm
>feito do que repetir Marx, sem o terem compreendido.
>Por este facto, em cada interpretação acrescentam aos
>erros de Marx umas quantas alarvidades. Por outro
>lado, parece-me que o Statter, na sua resposta, também
>não alcançou o cerne das questões. Permito-me, por
>isso, intervir novamente sobre o tema.
>
>1-Factores produtivos que originam (criam) o
>sobreproduto e o lucro ou mais-valia. Na perspectiva
>marxista, que os dois polemistas espanhóis reflectem
>bem, o sobreproduto, e o lucro (ou a mais-valia
>marxista) em que ele se transforma pela troca, seria
>originado pela acção da força de trabalho no processo
>produtivo. Não se pode dizer que uma tal concepção
>derive apenas duma tomada de partido inicial de Marx a
>favor do proletariado; visto ela se encontrar ao longo
>da obra de Marx, teremos de atribuir-lhe o valor de
>concepção filosófica. Esta concepção, porém, não tem
>qualquer fundamento, dado que desde tempos imemoriais
>o trabalho se desenvolve em inter-relação entre o
>homem (a força de trabalho) e o instrumento (os meios
>de trabalho), para já não falar do concurso de outros
>meios de produção (para além das matérias-primas) que
>têm vindo a tornar-se indispensáveis no processo
>produtivo.
>
>Escamoteando o cerne do problema, tanto Marx como os
>marxistas apresentam-no como se ele se restringisse à
>dicotomia entre o lucro ou mais-valia ser originado na
>circulação ou na produção das mercadorias. Fora,
>talvez, o comerciante e os seus cegos representantes,
>os economistas vulgares, mais ninguém apresentou assim
>o problema, desde o pequeno produtor capitalista até
>aos economistas clássicos (cujas obras, aliás, Marx
>tomou como objecto de crítica). Desfeita esta falsa
>dicotomia, o verdadeiro problema transfere-se para a
>produção, para onde de facto se origina o sobreproduto
>(a parte sobrante ou apropriada do produto): saber a
>que factores produtivos atribuir a sua criação.
>
>Num modo de produção pré-capitalista, ou nos
>primórdios do capitalismo industrial em ramos de
>baixíssima composição orgânica do capital, em que os
>meios de trabalho tivessem um valor desprezável ou
>muito menos importante que o valor da força de
>trabalho, ainda se poderia admitir, ainda que com
>reservas, que o sobreproduto fosse criado apenas pela
>força de trabalho; no capitalismo desenvolvido (que
>Marx estudou), uma tal concepção é de todo
>inaceitável. Em qualquer dos casos, porém, devido ao
>carácter inter-relacional do trabalho humano com o
>instrumento, que transforma o trabalho abstracto
>simples (os diversos trabalhos concretos
>homogeneizados) em trabalho abstracto complexo, a
>criação do sobreproduto não pode ser atribuído apenas
>à força de trabalho.
>
>A concepção marxista, todavia, não é assim tão
>surpreendente, nomeadamente, por que ao longo de O
>Capital Marx produz toda uma série de considerações
>sobre os modernos meios de trabalho que poderemos
>considerar, no mínimo, ingénuas. Embora reconheça as
>suas capacidades para potenciarem o aumento da
>produtividade e o sobreproduto, e reconheça igualmente
>que a proporção do seu valor em relação ao valor da
>força de trabalho é crescente (espelhado, apenas em
>parte, no conceito marxista de composição orgânica do
>capital), a atribuição da criação do sobreproduto
>apenas à força de trabalho só pode ser resultado de um
>enviesamento grosseiro, quando não de cegueira
>deliberada.
>
>Esta errada concepção da criação do sobreproduto
>reflecte-se depois na forma como Marx determina o
>valor das mercadorias, a partir da chamada taxa de
>mais-valia (relação entre o valor acrescentado e o
>capital variável, dado que só este originaria o valor
>acrescentado). Como a força de trabalho é totalmente
>móvel, a produtividade do trabalho abstracto simples
>em qualquer processo produtivo concreto só pode ser
>idêntica e o valor acrescentado gerado só pode ser
>directamente proporcional ao seu valor, dando origem a
>taxas de mais-valia constantes. Com taxa de mais-valia
>constante, a taxa de lucro só pode decrescer à medida
>que aumenta a composição orgânica do capital (um dos
>pressupostos da famosa lei da queda tendencial da taxa
>de lucro)!
>
>Os marxistas tentam escapar a este enredo invocando a
>intensificação da exploração através do aumento da
>produtividade, escamoteando, uma vez mais, que o
>aumento da produtividade (quando não resulte de
>melhorias de gestão técnica ou económica) só pode ser
>atribuído ao trabalho abstracto complexo
>(nomeadamente, através do aumento do investimento em
>meios de trabalho) e não ao trabalho abstracto
>simples; a este apenas pode ser atribuído o aumento da
>exploração proveniente da extensão da jornada e do
>aumento do ritmo do trabalho. A partir desta
>concepção, chegam ao paradoxo de afirmar, sem qualquer
>pudor, que um sujeito que trabalha trinta horas numa
>função de carregar nuns botões de um equipamento
>automatizado, bem recostado, num ambiente climatizado
>e agradável, que não gasta nem metade das calorias que
>ingere e aufere, por exemplo, 1200 euro por mês, é
>mais explorado do que um outro, que trabalha quarenta
>ou mais horas, a vergar a mola no duro e à torreira do
>sol, que ganha, também por exemplo, 600 euro por mês,
>só porque devido às diferenças de produtividade a taxa
>de mais valia obtida pela empresa do primeiro é de
>200% e a do segundo é de 100%. Ora, se tivessem um
>pouco de vergonha na cara não lhes ficava nada mal! E
>aqui, o Statter, que julga estar o problema apenas no
>carácter individual ou social por que é abordado, pode
>extrapolar os casos apresentados de empresas e de
>trabalhadores individuais para exemplos típicos de
>valores médios (e, logo, sociais) que ocorram em dois
>ramos distintos!
>
>Mais grave, porém, é os marxistas persistirem nos
>mesmos erros tanto tempo depois de Marx, sem se darem
>conta do ridículo em que caem. Por este andar, mesmo
>quando a produção for totalmente mecanizada e
>automatizada e o trabalho vivo se ocupar apenas da
>circulação das mercadorias ainda continuarão a
>atribuir a criação do sobreproduto apenas à força de
>trabalho! É isto uma questão de fé? Não: é
>imbecilidade! Porque até a crença pela fé tem limites!
>
>2-Quantificação e repartição do produto. Problemas
>distintos do primeiro são estes outros da
>quantificação do produto (e do sobreproduto) e da
>proporção da sua repartição entre as pessoas que são
>detentoras dos factores produtivos (o capitalista,
>detentor dos meios de produção, o trabalhador,
>detentor da força de trabalho que aliena ao
>capitalista). Antes de mais, convém esclarecer que
>qualquer sociedade tem necessidade de quantificar o
>produto, não só para gerir a produção, o consumo e a
>acumulação mas também para efectivar a sua repartição
>entre os diversos intervenientes, nomeadamente quando
>ela se efectua através da troca. Atribuir valor ao
>produto não é mais, portanto, do que quantificá-lo
>através de um qualquer padrão de medida. Encontrar uma
>unidade suficientemente idónea para representar a
>grandeza valor (e o custo como categoria do valor
>susceptível de homogeneizar a utilidade tão diversa
>dos produtos) foi objectivo dos economistas clássicos
>(entre outros, A. Smith e D. Ricardo), e o grande
>contributo de Marx foi ter proposto para unidade um
>padrão social, ao invés dum padrão particular proposto
>por aqueles, homogeneizando assim o que era
>heterogéneo.
>
>Como aflorei já noutra intervenção, e escuso de
>repetir alongadamente aqui, devido ao facto das
>mercadorias capitalistas serem produtos de capitais de
>composição orgânica distinta, susceptíveis de gerarem
>produtividades distintas, o padrão tempo de trabalho
>abstracto socialmente necessário não é adequado para
>quantificar com fiabilidade o valor das mercadorias
>(ou até das produções particulares). Quanto muito, ele
>teria alguma operacionalidade ao nível da produção
>global e para eventual determinação da produtividade
>geral no interior duma formação económica-social (de
>mercado fechado ao exterior e restrito às mercadorias
>capitalistas); como este não é o caso do capitalismo
>realmente existente, ele não tem nele qualquer
>utilidade. O preço, enquanto forma relativa do valor,
>e o dinheiro, enquanto mercadoria padrão, assumem
>portanto a forma e a função de unidade de medida
>prática do valor.
>
>E como também tive oportunidade de referir na mesma
>intervenção anterior, defender que o trabalhador tem
>direito ao sobreproduto, apesar de ter vendido a sua
>mercadoria força de trabalho, é de uma ingenuidade que
>ofende toda a lógica. Extrapolando da força de
>trabalho para outros factores produtivos, seria como
>se o vendedor de uma máquina reclamasse do seu
>comprador, como direito seu, o eventual sobreproduto
>que este tivesse obtido com o uso dela! Tanto maior o
>erro quanto Marx afirma (ainda por cima, erradamente,
>como também penso já ter demonstrado) que as
>mercadorias se trocam na proporção dos seus valores e
>a mercadoria força de trabalho não fugiria à regra!
>
>Porque terá, então, o sobreproduto, o lucro ou a
>mais-valia valor tão elevado, apesar da produtividade
>crescer a ritmos tão baixos. Trata-se, é claro, da
>forma como o produto é repartido. Se ele fosse
>repartido equitativamente por todos os intervenientes
>na produção nada sobraria (independentemente do uso
>que cada um desse à parte que lhe acabedasse); se,
>depois das trocas mútuas, alguma parte sobra é porque
>não é repartido equitativamente por todos os
>intervenientes; e esses outros intervenientes só podem
>ser os trabalhadores, já que essa parte sobrante é
>repartida equitativamente entre os capitalistas, como
>diz Marx (embora, na realidade, também não o seja,
>devido à produtividade diferencial). Para que tal
>aconteça, para que exista sobreproduto apropriado
>pelos detentores de umas mercadorias, algo na
>concepção marxista está errado, e esse algo só pode
>ser a concepção de que as mercadorias se trocam na
>proporção dos seus valores. A haver mercadoria trocada
>abaixo do valor ela só pode ser a força de trabalho.
>Por todas as razões e mais algumas!
>
>Não é necessário, portanto, continuar apegado à
>indignidade marxista de que o sobreproduto é criado
>pela força de trabalho e que seria por este facto que
>o trabalhador teria direito a ele, que além do mais
>não resiste à simples lógica. Independentemente de
>quem o cria, o sobreproduto existe porque o produto
>não é repartido equitativamente pelos detentores dos
>diferentes tipos de mercadorias. Nesta base, mesmo
>quando a mercadoria força de trabalho deixar de ser
>usada na produção continuará a haver sobreproduto.
>Esperemos que não demore tanto tempo até que a
>concepção marxista se revele aos olhos de quem não
>quer ver a completa falácia que sempre foi.
>
>A partir de então, talvez as lutas das classes, em
>geral, e as dos trabalhadores assalariados, em
>particular, passem ser encaradas de modo mais coerente
>e para fins mais concretos e materialistas, ao invés
>de andarem atreladas a utopias idealistas sem qualquer
>fundamento.
>
>As minhas desculpas pela extensão.
>
>JMC.
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
| |