Author:
Guilherme Statter
|
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
Date Posted: 28/08/04 14:39
In reply to:
José Manuel Correia
's message, "Re: TROCA DESIGUAL E EVOLUÇÃO SOCIAL - 1" on 27/08/04 16:51
Correia,
Terei muito gosto em discutir os diversos pontos por si levantados, mas antes sinto que é necessário um esclarecimento prévio, na medida que o meu posicionamento nestas coisas - julgo eu que... - é tudo menos ortodoxo ou convencional...
Vamos a ver se eu esclareço então a minha posição nestas coisas de Marxismo, Teoria do Valor e Exploração.
Se bem entendo julgo que haverá consenso entre os analistas em classificar as várias correntes de pensamento que discutem a teoria do valor (e dos preços) em dois grandes campos alternativos, o mais das vezes "concorrentes" e quanto a mim algo mais pró "complementares":
- A corrente "marginalista" (predominante nas escolas de economia de todo o mundo e hoje vulgarmente designada por "main stream") e,
- a corrente "marxista" (que se vai infiltrando às vezes "disfarçada" de corrente "institucionalista"...).
Haverá (e há...) muitas e diversas variantes e subtilezas, derivadas (ou adentro) daquelas duas correntes, mas no fundamental estão de acordo com o respectivo núcleo central de conceitos.
Serão pois dois paradigmas alternativos.
Pode, eventualmente, parecer uma ideia peregrina (cheguei lá sozinho e por isso não invoco nenhuma autoridade publicada...), mas entendo que estes dois paradigmas são muito mais complementares (mesmo sendo alternativos) do que parece à primeira vista. Sendo que, quanto a mim, o paradigma marxista é "apenas" mais abrangente do que o paradigma "marginalista". São como que dois pares de óculos que nos permitem ver aspectos distintos da mesma realidade. Ou, se quiser, são por vezes como que os dois lados de um espelho. Encontrando-se (na sua visão das coisas do mundo socio-económico) exactamente na superfície do dito espelho.
Se bem me lembro, era Alfred Marshall quem afirmava que fazia tanto sentido perguntar "se era a Oferta se a Procura quem determinava o preço das coisas, como fazia (ou não!...) sentido perguntar qual das duas lâminas de uma tesoura é que cortava pano".
Quero eu dizer na minha, que a teoria marginalista NÃO está errada, é apenas insuficiente ou (nas palavras de um economista francês que tive ocasião de conhecer recentemente), dá uma visão enviesada das coisas. Em rigor a palavra utilizada foi , "miopia". Eu diria antes "daltonismo".
Devo acrescentar que o mesmo se passa com a visão marxista ("vulgar" ou mais comum), justamente QUANDO IGNORA o "outro lado do espelho".
Como certamente já entendeu está aqui subjacente o famigerado problema da "transformação dos valores em preços". A esse respeito seria interessante reflectir sobre aquele "teorema" (em rigor é o resultado da dedução da lógica implícita nos postulados previamente enunciados...) da economia "main stream" que nos diz que
"em condições de concorrência pura e em situação estática, o lucro económico – diferente do lucro contábil – seria ZERO ou nulo".
Num extenso diálogo aqui travado há uns meses atrás com o Penim Redondo e o Paulo Fidalgo tive já ocasião de explicar porque é que entendo que "os óculos" do marxismo permitem ver mais do que "os óculos" do marginalismo. Basicamente, enquanto que o marxismo permite ver o processo de exploração (adentro do processo de acumulação...), o marginalismo torna as pessoas "cegas" (ou míopes ou daltónicas...) em relação a esse processo de exploração.
Por outro lado, um dos temas que aparece na crítica ao paradigma marxista é o alegado facto de este paradigma não considerar o vector "Tempo"... (o Bohm-Bawerk então "descasca" no Marx (e no Ricardo) de forma definitiva e contundente! eh eh eh...).
Esta acusação é, no mínimo, insólita (para não dizer aberrante) mas isso terá que ficar para outra ocasião, se ela se propiciar.
Entretanto, e já agora, acrescento que – para desgraça das centenas de milhões de desempregados em África (e não só, claro...) - o "marxismo vulgar" tornou-se visceralmente cego em relação a alguns dos mais importantes elementos intervenientes na produtividade dos factores: a iniciativa, a motivação, o saber tecnológico, a função de coordenação de actividades... Como toda a gente sabe, não são as máquinas nem os carris dos caminhos de ferro que têm iniciativa. E como esta não "cai dos céus aos trambolhões", algum valor há-de ter...
Como é evidente, tudo isto tem N ramificações para analisar e discutir, mas como certamente entenderá, fico-me por aqui.
Cordiais saudações e resto de boas férias,
Guilherme Statter
[
Next Thread |
Previous Thread |
Next Message |
Previous Message
]
|